Tainá Müller: “A vida é um salto de fé o tempo inteiro”

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Na vida de Tainá Müller tudo aconteceu cedo. Nascida e criada em Porto Alegre, filha de uma dona de casa e de um comerciante, com 6 anos já preparava seu café e ia para a escola sozinha. Com 10, queria ser independente e, adolescente, trabalhava animando festinhas infantis. Entrou na faculdade de jornalismo aos 16, se formou aos 20, e aos 21 partiu para ser modelo na Ásia. Engrenou na carreira de atriz, profissão escolhida também por suas irmãs, Titi Müller, 31, e Tuti Müller, 29. Em uma família de mulheres, as três já eram feministas. “Minha mãe nos criou muito para sermos autônomas, independentes. Intuitivamente, a gente sabia disso, mesmo sem ter o amparo teórico e político comportamental de hoje”, avalia.

Tainá fala – e muito – sobre feminismo. A luta das mulheres por direitos e espaços iguais faz parte não só da visão de mundo da atriz, como da forma que ela se apresenta a esse mesmo mundo. Estudiosa do tema, com direito a aulas, assume, inclusive, os privilégios. “Se para as mulheres brancas é difícil, para as mulheres negras, para as mulheres periféricas é muito, mas muito mais difícil”, diz a Aura de O Outro Lado do Paraíso, novela que debateu, entre outros temas, a violência contra a mulher.

Com a reta final da novela, ela planeja fazer a curadoria artística de uma homenagem à escritora Hilda Hist, na Feira Literária de Paraty, a Flip, e está pensando no formato de um livro com suas “divagações sobre a maternidade”. “Ser mãe me deu vontade de ser mais autoral e não apenas uma intérprete”, diz a atriz, mãe de Martin, que completa 2 anos em maio. Nascido prematuro, o menino mudou a mãe (“Eu me considero muito melhor do que eu era”) e  tem os cuidados divididos igualmente com o pai, o diretor Henrique Sauer, 37 anos. “Ele é um homem muito contemporâneo. Tinha vontade de ser plenamente pai”, diz Tainá, rechaçando a noção de que pai “ajuda”. “Pai não é ajudar, é ser pai”, afirma.

Tainá Müller (Foto: Toca Seabra )

O Outro Lado do Paraíso está chegando ao fim. Qual o seu balanço?
É um sucesso. As pessoas se envolveram, a trama bateu recorde de audiência. A novela foi um gol. Eu já sabia que Aura ia apanhar do Gael (Sérgio Guizé), mas isso ia ser explorado de uma outra forma. Aí as pessoas começaram a não querer ver mais essa violência contra a mulher.

Como assim?
Elas não quiseram mais ver (a violência), agora o que significa exatamente isso, só um estudo antropológico para saber. O Brasil é um país muito violento para as mulheres. Os índices, as taxas de violência são assustadoras em relação a outros países. A minha teoria pessoal é de que se trata de problema muito presente e talvez seja difícil mesmo ver essa violência na televisão porque ela espelha a realidade.

Falando sobre violência contra mulher, você faz parte de um grupo de estudos feministas. Como funciona?
Na verdade é um movimento em que mulheres estão se reunindo e tentando entender como a gente se coloca nesse mundo novo, nessa corrente que está cada vez ganhando mais força de recolocar as coisas no lugar. A gente fala em inventar um novo ‘normal’. É um movimento não só de artistas, mas de diferentes grupos de mulheres em suas áreas.

Tainá Müller Aspas (Foto: )

E na prática?
No meu caso, atrizes e diretoras acabaram se unindo mais nos últimos tempos. Existem aulas, às quais eu não tenho ido por causa da novela, com a (escritora) Djamilla Ribeiro e com a (filósofa) Marcia Tiburi, sobre filosofia, sobre feminismo. É um espaço de pensamento. Quando gente aprofunda um pouco, se dá conta que o mundo foi todo contado por homens e ter um ponto de vista das mulheres é muito importante para se empoderar. Dizem que essa palavra está batida, mas não. Se empoderar é ter autonomia e confiança de poder disputar espaços de poder que ainda não estão acessíveis às mulheres.

Vivemos um momento muito difícil para ser mulher…
Muito! A gente conquistou todo o mercado de trabalho, a mulher é uma força de trabalho maior que a masculina em alguns países, temos tem uma formação muitas vezes mais ampla, mas esse espaço de poder ainda está muito assimétrico. As mulheres ainda não conseguem ter igualdade salarial e frequentar cargos de chefia da mesma forma. Ao mesmo tempo, não estamos mais em casa porque temos que trabalhar, então os filhos estão sendo criados por outras mulheres. Há quem não tem apoio em casa para as tarefas domésticas. Está um emaranhado.

Tainá Müller (Foto: Toca Seabra )

Qual o caminho?
Temos que pelo menos equalizar esse espaço de poder para compensar todas as conquistas dos últimos anos. Não adianta ocupar a força de trabalho e não ocupar esses espaços de poder. E se para as mulheres brancas é difícil, para as mulheres negras, para as mulheres periféricas é muito, mas muito (ênfase) mais difícil. Como mulheres temos de ter a sororidade e olhar para as mulheres mais vulneráveis. É aquele movimento de uma sobe e puxa a outra.

Esse tipo de entendimento existia na sua casa?
Meu pai (Eduardo, 65) veio muito do interior, gauchão, tinha uma cultura mais machista. Mas em uma casa com quatro mulheres e só ele, ele tinha o voto vencido. Minha mãe (Vera Lúcia, de 62) nos criou muito para sermos autônomas, independentes. Intuitivamente, a gente sabia disso, mesmo sem ter o amparo teórico e político comportamental de hoje.

Tainá Müller Aspas (Foto: )

Vocês sempre foram feministas, então.
Já éramos feministas bem antes do ‘boom’. Nunca tivemos medo de nos assumirmos feministas por mais preconceito que essa palavra gere às vezes. Parece que é uma coisa feia ser feminista!

Apesar dos avanços, ainda se diz para a menina ‘fecha a perna’, ‘não senta de perna aberta’…
Não vou dizer que minha mãe era a Simone de Beauvoir em casa. Ela tinha suas limitações, mas era bem avançada para sua origem. Mas a sociedade o tempo inteiro me falava o que eu não podia fazer. Cresci sabendo que eu podia tudo por capacidade e não podia muita coisa por barreira social. Na Porto Alegre dos anos 80, os homens fazem o churrasco e as mulheres fazem a salada de batata. Tem a rodinha de conversa das mulheres e a dos homens. O menino é macho, a menina é prendada. E isso, cara, nunca engoli. Nunca me desceu essa história.

Sendo irmã mais velha e feminista, como como foi quando Titi falou publicamente sobre a violência que sofreu (em entrevista, ela contou ter sido estuprada na adolescência)?
É muito difícil a dor dessa exposição e sei o porquê dela ter feito isso. A Titi abraça muito seriamente essa missão (se emociona). É necessário que se fale (da violência contra a mulher) se não parece uma coisa meio conto da Carochinha. O abuso e o assédio são coisas infelizmente tão corriqueiras. Para estabelecer um novo normal, temos de trazer à tona tudo isso.

Já passou por situações de assédio?
Sinceramente qual mulher não passou por um situação de assédio? Mas existem diferentes tipos de assédio…. Olha, é tão louco que a gente chama de ‘básico’ alguém passar a mão na sua bunda no ônibus! Não é nada básico, é um absurdo, mas é que existem situações mais constrangedoras, perigosas ou violentas. Sim, peguei muito ônibus na vida e já vivi várias situações dentro do transporte público. Não gosto de generalizações, mas se todas as mulheres pensarem bem elas vão identificar situações de assédio e de abuso nas suas vidas. Coisas que você só está sofrendo pelo fato de ser mulher e não por você ser o indivíduo que você é.

Tainá Müller Aspas (Foto: )

É difícil falar em feminismo sem falar em política.  Como vê a situação do país hoje dentro de sua visão feminista?
Com uma tristeza absurda, quase uma depressão. Politicamente, estamos andando para trás e isso é assustador. A gente tinha muito para avançar e de repente estamos perdendo conquistas que nem pensávamos que perderíamos. Está tudo muito estranho e cheio de ódio, as pessoas estão sem empatia. Não existe diálogo. Quando você fala, parece que está falando só pra os seus e não consegue acessar o outro lado. E vice-versa.

Tem gente que diz que artista não deveria se expressar politicamente. O que pensa sobre isso?
A classe artística vem sendo muito atacada no Brasil, e isso tem um porquê: a gente tem voz. É engraçado que sempre que um ator vai falar em prol de algo, quem é contra rebate que ‘fulano mama na teta de não sei quem’. As pessoas simplesmente não admitem que a empatia é possível e que nem todo mundo só age por interesse próprio.

Tainá Müller (Foto: Toca Seabra )

É possível ter empatia por alguém que tem um discurso racista, homofóbico, machista?
Ninguém está livre de preconceitos, mas cada caso é um caso. Tenho parentes com quem eu prefiro nem discutir política porque que eu não quero brigar. Acho que não vale à pena.

Já brigou com algum parente?
Nesse momento no Brasil, eu acho que todo mundo está brigando com algum parente seriamente. Mas eu já desisti de brigar. E não sou obrigada a brigar com desconhecidos, então cada vez mais é complicado entrar no corpo a corpo das redes sociais. Por mais vontade que dê, quando a pessoa fala um absurdo eu tento passar adiante. É difícil estabelecer um diálogo com quem tem tendências muito reacionárias, que beiram quase o fascismo. Essa pessoa é tão cheia de verdades e quer ficar ali com as certezas dela. Mas não é algo só do Brasil, há um movimento de extrema direita no mundo, e que está tentando conter o que não pode ser contido. As pessoas ganharam voz, as minorias ganharam voz. A liberdade cresceu. A geração mais antiga não entendeu o que rolou com essa revolução digital. Está querendo puxar o freio de mão.

Mas há muitos jovens reacionários por aí…
Sim, tem uma molecada também, mas acho que é muito influenciada pela galera mais velha.

As eleições de outubro te preocupam?
Se houver, né? Vamos ver se vai ter. Para começar, estamos aqui na expectativa.

Tainá Müller Aspas (Foto: )

Voltando ao seu lado feminista, dentro de casa como é? Você e Henrique dividem tudo mesmo?
Sim, mas isso é mérito dele e mérito meu porque a cultura machista está dentro das mulheres também. Tenho amiga que diz que o cara não participa, mas ela não abre o espaço, acha que a obrigação de criar o filho é feminina porque a sociedade diz isso o tempo todo. É só ver que na escola: se deu problema, ligam para a mãe e não para o pai. E-mail do financeiro vai para o pai, questões de comportamento para mãe. E isso vai sendo incutido na cabeça da mulher.

Mas tem mãe que acha que ninguém vai conseguir, nem o pai, cuidar do filho tão bem quanto ela…
Então, também é da mulher abrir um espaço para o cara e entender que, às vezes, ela não vai ser o centro da vida daquela criança, que esse centro vai ser dividido em dois. É uma escolha você abrir mão desse espaço porque a maternidade é ainda muito valorizada na sociedade como um poder muito feminino. Você vai dizer ‘vem com a mamãe’, e a criança vai falar ‘não, quero o papai’. Para a gente atingir algum dia a igualdade, os homens têm que abrir espaço no ambiente político e social e de poder fora de casa, e as mulheres têm que abrir espaço dentro de casa. Sendo que nenhuma mulher é obrigada a ensinar nada para homem nenhum. Os homens também têm inteligência suficiente para buscaram isso.

E na sua casa isso funciona?
Tem semanas que meu filho está mais do papai e tem semanas que está mais da mamãe. Isso é muito de acordo com quem está trabalhando mais e quem está ficando mais com ele. Eu gosto que Martin tenha essas duas figuras em igual peso para que ele dê confiança e dê acolhimento. Dividir esse espaço de importância na vida da criança com o pai não é fácil emocionalmente, mas é uma coisa de vital importância.

Tainá Müller (Foto: Toca Seabra )

Isso é algo com que você e Henrique sempre concordaram ou foi construído aos poucos?
O Henrique é um homem muito contemporâneo. Como todos nós, ele tem resquícios do machismo, mas é um homem que o tempo inteiro se autorregula, digamos assim. Ele tinha um desejo de ser plenamente pai. Acho errado quando dizem que os homens têm que ajudar as mulheres (com os filhos). Não gente, ser pai não é ajudar, é ser pai. É um papel que tem suas dores e delícias tanto quanto ser mãe. Se um homem deseja ser pai, ele tem que desejar isso plenamente com todos os seus sacrifícios. Henrique queria isso.

O que a maternidade representou para você?
No início a gente acaba se perdendo naquele fluxo de tanta coisa nova e, às vezes, nem lembra direito quem é ali de tão entregue que fica nesse processo todo desde a gravidez. Eu nunca mais vou ser a mulher que era antes. Mas também não sou a mulher que fui no primeiro momento do susto de ser mãe de primeira viagem, quando a gente não sabe nada e tem que descobrir tudo. Sou uma terceira coisa. Eu me considero muito melhor do que eu era.  Eu dei uma aterrada na vida e entendi muito sobre mim mesma.

O que Martin te ensinou?
Fiquei ainda mais empática com o ser humano, com a dor e a limitação do outro. Também vejo que não estamos muito distantes daquela criança que fomos. Somos crianças crescidas tentando também amadurecer nesse mundo.

Tainá Müller (Foto: Toca Seabra )

Martin nasceu de parto prematuro. Como lidou com essa experiência?
Isso me mostrou mais uma vez que, quando o assunto é natureza, a gente não manda nada. Você está à mercê dela. E a gravidez é assim, você aprende a entregar. Eu fui para a maternidade com a roupa do corpo. As pessoas não acreditavam que eu estava parindo. O médico me mandou para casa a primeira vez, voltei e ele queria me mandar a segunda de volta. Mas rolou o parto e da forma que deveria rolar porque meu filho nasceu surpreendentemente saudável. Ele poderia ser entubado, mas não foi. Martin foi um guerreiro e nasceu bem (se emociona). Depois foi para UTI porque teve icterícia.

O que é a maternidade para você?
Ela representa muito bem o que é a vida: a vida é um salto de fé o tempo inteiro. Não sabemos o que vai acontecer amanhã, mas temos a ilusão de controle. Inclusive sobre a criação dos filhos. Tenho medo de errar por excessos ou por faltas, mas eu estou quase relaxando em relação a isso. O importante é a gente fazer o que acredita.

E como é a educação dele?
Vejo Martin como como uma criança que está florescendo, e eu tento não atrapalhar o florescimento daquela alma que está ali. Uma amiga ouviu da homeopata sobre o filho que ‘é só você não embotar a alma dele até os 7 anos que ele vai prosperar’. Achei isso muito significativo. Se você não atrapalhar, se olhar com respeito e amor essa criatura, muito provavelmente ela vai olhar com amor e respeito para si e para os outros.

Tainá Müller Aspas (Foto: )

Criar um menino é difícil?
Não visto ele todo de azul, não faço ele o boyzinho da mamãe. Mas vejo o jeito que ele é tratado pelos homens, ‘e aí, garotão, vai pegar as menininhas’, ‘ah, esse aí vai ser namorador’. Fico triste em pensar por mais que eu tenha essa preocupação em casa, o mundo vai cobrar  essa identidade estereotipada masculina dele. A gente fala muito da opressão que o machismo exerce nas mulheres, mas ele exerce uma opressão imensa nos homens também. O dia que os homens se derem conta disso, acabou a desigualdade, porque é uma prisão você ter que ser o macho o tempo inteiro, ter que impor os seus desejos pela violência.

A pergunta é indelicada, mas você tem vontade de ter mais filhos?
Tenho muitas dúvidas. Sou bem perfeccionista e exigir de mim mesma ser assim também com o segundo filho. Fico na dúvida, mas não descarto. Talvez um dia adote.

Como foi voltar ao trabalho depois de ser mãe?
Quando Martin tinha cinco meses e meio, fiz uma série, Edifício Paraíso. Foi bem intenso, gravava 12 horas por dia e estava amamentando. Henrique estava de licença e ficava no camarim esperando com ele. Eu fazia a cena e voltava para dar de mamar. Hoje, não é que seja fácil… Não é bom ver Martin chorando e querendo que eu fique em casa. Mas tento explicar para ele que mamãe está trabalhando e que trabalhar é uma coisa boa. É bom que ele saiba que a mãe e o pai gostam de seus ofícios, e que isso vai trazer lá na frente uma dignidade para ele de algum jeito. Eu acredito mesmo nisso. Desde os 10 anos eu já queria trabalhar.

Tainá Müller Aspas (Foto: )

Por quê?
Eu sempre quis muito a minha independência. Minha família foi sempre a típica família classe média batalhadora brasileira. Atravessou as crises, às vezes tinha mais grana, às vezes tinha bem pouca grana. Tudo era muito instável e essa instabilidade me fez querer batalhar muito desde cedo. Com 16 anos fazia recreação infantil, ia em festa de criança e colocava o cabeção de Pikachu.. Entrei na faculdade de jornalismo também aos 16 anos, meu primeiro estágio da vida foi como assistente de direção da Globo em um projeto lá em Porto Alegre.

Mas era estágio pago?
Pagavam pouco, mas pagavam (risos). Desde criança ligava uma câmera e eu pulava na frente, era exibida. Eu apresentava trabalho de química da escola com teatro, sabe. Mas nunca cogitei fazer isso de forma profissional, não sabia que era possível ser atriz. Estava longe do eixo Rio-São Paulo. Sou a única pessoa que se formou na minha família, que vem do interior, bem humilde. Eu não tinha essa referência.

E como foi esse processo?
Saí desse estágio e consegui outro na MTV de Porto Alegre como assistente de produção e recepcionista. Fazia de tudo; servia cafezinho e ajudava a produzir programas. Ali comecei a juntar dinheiro. Meu primeiro salário foi R$ 300 e guardei R$ 50. Pensei: ‘vou começar a poupar’. Passei de assistente a produtora, virei apresentadora e com 19 anos tinha dois estagiários. Tipo, o jogo virou, não é mesmo? (risos)

Tainá Müller (Foto: Toca Seabra )

O que aconteceu?
Foi um baita aprendizado. Entrevistei várias bandas, trabalhava muito. No final da faculdade, eu dormia três horas por noite. Era bolsista na PUCRS, não podia tirar nota abaixo de 8. Era muita pressão, tinha que ir super bem no curso, tinha que ir super bem no trabalho. Cogitava ser montadora, tinha dúvidas se seguiria o jornalismo. Queria dar um tempo, mas já tinha saído de casa, morava com meu namorado e precisava pagar as contas. Aí um amigo falou ‘você é bonita, por que que não se inscreve numa agência de modelos?’. Achei meio absurdo.

Por quê?
Modelo para mim era só tipo a Gisele Bündchen, só top model. Eu não sabia que você podia trabalhar como modelo sem ser uma top e isso te dar uma renda. Mas esse amigo falou que eu ganharia em um dia o que ganhava em um mês, e fiquei bem tentada. Levei umas fotos de divulgação da MTV na Ford Models e duas semanas depois eu estava indo para a Tailândia, deixando tudo e todos para trás.

Inclusive o namorado?
A gente ficou namorando à distância. Eu tinha acabado de montar esse apartamento com esse namorado, mas eu fui porque eu sempre tive uma coisa… Eu me jogo e penso depois. Eu vou me jogando, vou vivendo as experiências. Sempre fui muito atraída por experiências diferentes e para mim morar na Tailândia do nada me pareceu absolutamente tentador.

Seus pais aceitaram bem essa mudança?
Eles sempre me estimularam muito a me jogar. Eu ia para escola sozinha com 6 anos. Tuti era muito bebezinha, minha mãe virava a noite. Eu levantava, fazia meu café da manhã, meu Nescau, penteava meu cabelo, botava minha roupa, ia dar tchau para minha mãe e saía para escola. Era algo normal. Hoje vejo filhos de amigos com 15 anos e com babá. Acho que era uma coisa de arquétipo de irmã mais velha. Você é a responsável, ‘vai lá que o mundo é seu’…

Tainá Müller Aspas (Foto: )

Como foi a experiência na Ásia?
Daria um livro! Fiquei quase um ano lá, passei inúmeros perrengues. Vivi na Tailândia e na China, era 2004, e fui para lugares onde as pessoas não falavam inglês. Morava em um apartamento com vários modelos que iam e viam, era quase um Big Brother, mas mudando os participantes (risos). Comia muito fast food,  porque passava nos restaurantes, olhava as fotos e não identificava o que era. Sonhava que minha mãe mandava um pote de requeijão via correio. Quando batia o desespero, ligava para minha mãe. Coitada, o que ela ia fazer do outro lado do mundo? Gastava quase todo o dinheiro que eu ganhava com telefone.

Teve medo?
Em alguns momentos, sim. Uma vez, peguei um trem sozinha. Eu era uma menina de 21 anos que pesava 48 quilos, passava uma impressão de frágil. Na imigração, um cara começou a gritar comigo. Entendia apenas que era algo com meu passaporte e que ele queria me prender.

E como se saiu dessa?
Aí surgiu um australiano, que me abraçou, disse que eu era mulher dele, começou a falar com o oficial em chinês e fui liberada.  Até hoje não sei direito o que aconteceu. Mas fiquei por lá porque tinha uma fome de experiências. Foi um momento importante, onde consegui mergulhar dentro de mim. Olha que clichê, mergulhar dentro de mim, mas é verdade. Consegui entender o que eu queria fazer a partir dali.

Tainá Müller (Foto: Toca Seabra )

E o que era?
Aprendi que queria trabalhar com a fantasia, com ficção. O caminho que eu tinha escolhido antes, o do jornalismo, não me atraía mais, porque gosto mais de falar da realidade emoldurada pela ficção. Eu queria contar histórias pelo resto da minha vida, só não sabia onde me encaixar para fazer isso. O barato que encontrei na vida de modelo foi entrar no personagem. Eu dramatizava a situação em que estava sendo fotografada.

Mas curtia ser modelo?
Sinceramente, eu acho vida de modelo uma coisa louca. Hoje em dia se fala muito mais disso, na época não. Sei que é a possibilidade de muitas meninas salvarem as famílias, em alguns casos, até da miséria…  Eu era maior de idade, tinha feito uma faculdade, falava inglês, era uma pessoa preparada, mas via meninas de 13 anos do interior do interior na China sem falar uma palavra de inglês passando uns perrengues sérios.

Por exemplo?
Eu acho que é uma profissão que explora… Na minha agência na Ásia se você engordasse eles cortavam esse dinheiro da comida. Existe essa pressão da magreza. Mas é a chance de transcender uma situação social. Só que não acho saudável.  Na China tinha uma menina de 13 anos que passou por uma situação que o cliente queria tirar a parte de cima da roupa dela para fotografar, e ela não sabia explicar que não queria tirar. Acabou que ela ligou pra gente chorando. As modelos se ajudavam muito, a gente mediou a situação.

Você deixaria uma filha sua ser modelo?
Com essa idade de, 13, 14 anos, só se eu fosse junto. Se fosse o sonho da vida do meu filho, eu acho que aí eu iria junto. Eu sei que é difícil. Depois da Ásia voltei a Porto Alegre e dali fui para Milão. Na Ásia tinha muito brasileiro, na Itália primeiro fui para um apartamento só com nórdicas, e elas tinha um baita preconceito por eu ser brasileira.

O que elas faziam?
Achavam eu tinha que estar muito honrada de dividir apartamento com elas, pessoas tão loiras e nórdicas e de países tão prósperos. O tempo inteiro falavam ‘ah você vem de um país pobre, eu não sei se lá tem granola’. Eu ficava com muita raiva, muita raiva. Foi lá que decidi voltar para o Brasil e ser atriz. Daí fui para São Paulo, que eu também tinha um fetiche de morar lá, e comecei a estudar. E as coisas foram acontecendo. Ainda bem (risos).

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