Com inauguração adiada 6 vezes, Centro de Formação Olímpica sedia grandes eventos mas não acolhe comunidade

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Por Cinthia Freitas e Juscelino Filho, G1 CE

Anunciado em 2013 como parte do mais moderno complexo esportivo do país, o Centro de Formação Olímpica do Nordeste (CFO), em Fortaleza, ainda é inoperante para a comunidade do Bairro Castelão. Passados quase três anos do primeiro prazo para a inauguração, o Centro não foi entregue e não permite acesso aos moradores do seu entorno, embora já tenha sediado eventos como o Ultimate Fighting Championship (UFC), a Superliga de Vôlei e os Jogos Escolares da Juventude.

O CFO foi criado para ofertar 26 modalidades olímpicas em “três pilares”: desporto educacional, para alunos do Ensino Fundamental ao universitário; desporto participativo, aberto para utilização pela comunidade; e desporto de alto rendimento, para equipes de competição em alto nível. Quatro anos depois, apenas o desporto educacional é praticado no complexo, de forma não contínua, em eventos promovidos pela Sesporte.

A principal queixa da comunidade é levantada pelo líder da Associação de Moradores Maria José de Souza, Ruinaldo Lopes de Souza. Ele tenta negociar com o governo e os administradores do CFO uma autorização, principalmente para as crianças e jovens do bairro, para uso das piscinas, quadras, pistas e demais espaços para a prática das modalidades olímpicas disponíveis no local.

“Os dois maiores equipamentos esportivos do Estado estão aqui, mas nós ainda não conseguimos respirar o esporte”, lamenta Ruinaldo.

De acordo com o titular da Secretaria do Esporte do Ceará, Euler Barbosa, foi feito um acordo com a Galvão Engenharia, vencedora do consórcio para a realização das obras do CFO, para concluir a obra, que já estava com cerca de 98% do processo pronto. “Quando a construtora apresentou problemas internos há uns dois anos, nós começamos uma negociação e acertamos que para concluir havia um saldo a pagar. Fizemos reuniões, procedimentos jurídicos e vamos concluir o pagamento. O compromisso deles é entregar alguns detalhes.”

Conforme Barbosa, o valor acertado para a entrega foi de R$ 1,4 milhão, e o acordo deverá ser concluído em 60 dias. Porém, o secretário frisa que está “sem possibilidade de estabelecer uma data” para inaugurar o equipamento.

A justificativa para a comunidade não ter acesso ao CFO é a obra inacabada. “Na verdade, ali ainda é um grande canteiro de obras. Só vai ser possível ter acesso quando houver equipe lá dentro”, explica o secretário.

No entanto, ele destaca que nos últimos dois meses o Centro foi palco de 26 competições esportivas, e cerca de 35 mil pessoas passaram por lá. “Essa bandeira de que o CFO era um elefante branco está sendo superada, porque ele está sendo utilizado”, aponta Barbosa.

Arlindo de Sousa Oliveira, comerciante conhecido como Roberto, vive há 18 anos nas proximidades da Avenida Alberto Craveiro. Ele diz que as opções de lazer esportivo na área foram resumidas à pista de skate, espaço anexo ao CFO, e único aberto à comunidade.

Bem de frente para o mercadinho de Roberto, onde hoje é a sede da Sesporte, ficava a Vila Olímpica do Castelão, alternativa de lazer público para ele, o filho de 11 anos e os amigos jogarem futebol.

Ali perto, no “Marcim da Fruta”, o proprietário da mercearia, Márcio Carvalho, afirma que a movimentação do bairro até melhora quando há evento no CFO. Em contrapartida, a construção do equipamento “foi melhor para quem é de fora”, já que a maioria dos moradores do bairro não conseguem usufruir, levando em conta o preço dos ingressos para esses eventos.

Pista de skate do CFO é o único espaço aberto à comunidade (Foto: Juscelino Filho/G1) Pista de skate do CFO é o único espaço aberto à comunidade (Foto: Juscelino Filho/G1)

Pista de skate do CFO é o único espaço aberto à comunidade (Foto: Juscelino Filho/G1)

Skate, lazer e cultura

Pedro de Lima Benjamin, 19, sai do Bairro Montese para usar a pista de skate do CFO quase todos os dias. Nem o sol das 15h, ou a situação insalubre do que deveria ser um escritório para atender a modalidade, ao lado da pista, desanimam o rapaz. Este espaço fica na base da passarela e está tomado por fezes e sujeira.

Além de servir à modalidade do skate, a pista virou um polo de lazer cultural para o bairro. Os moradores e o comércio ambulante utilizam o espaço no fim da tarde. Aos domingos, são realizados campeonatos de skate, batalhas de hip hop e grafite.

O que impede as atividades dos skatistas no local é a falta de energia. De acordo com Ruinaldo, líder da associação do bairro, em meados de maio, os refletores da pista queimaram. Com a alegação de que o Governo do Ceará não poderia empreender gastos no equipamento que ainda não foi oficialmente entregue, a administração do CFO se recusou a arcar com o conserto.

Conforme o líder comunitário, foram os próprios moradores que se juntaram para comprar o material necessário ao conserto, que, ainda segundo ele, foi realizado por um eletricista do CFO. Também foi por meio da associação que a comunidade conseguiu melhorar a pista e deixar em condições de uso. “A pista inicialmente foi limpa por nós. O mato tava ‘dessa altura’, nós tiramos tudo e limpamos. Conseguimos gasolina com um, máquina com outro, e fizemos a limpeza”, conta Ruinaldo.

Em 23 de julho, a iluminação sofreu nova falha. O gerente do complexo, Vitor Oliveira, explicou ao G1 que o problema pode ter sido causado pela chuva. Questionado sobre a solução, já que a pista receberia um evento da comunidade em 6 de agosto, Vitor garantiu que até lá estaria tudo funcionando.

Ruinaldo confirmou que o evento ocorreu, sim, mas parte dos refletores da pista continuaram queimados. O líder comunitário também disse que foi preciso a comunidade se juntar novamente. O custo, dessa vez, foi de R$ 250 para comprar disjuntores, contou um dos organizadores do evento, Jean Barbosa de Lima.

Sobre as condições dos banheiros ao lado da pista, Vitor Oliveira afirmou que a responsabilidade seria da empresa Galvão Engenharia. Já segundo o secretário da Sesporte, há um mês foi feito acordo para que a Prefeitura de Fortaleza fizesse uma limpeza no local.

Espaço destinado a ser escritório e oficina de skate, ao lado da pista de skate do CFO, está em situação de abandono (Foto: Juscelino Filho/G1) Espaço destinado a ser escritório e oficina de skate, ao lado da pista de skate do CFO, está em situação de abandono (Foto: Juscelino Filho/G1)

Espaço destinado a ser escritório e oficina de skate, ao lado da pista de skate do CFO, está em situação de abandono (Foto: Juscelino Filho/G1)

Banheiros ao lado da pista de skate do CFO estão tomados por fezes e sujeira (Foto: Juscelino Filho/G1) Banheiros ao lado da pista de skate do CFO estão tomados por fezes e sujeira (Foto: Juscelino Filho/G1)

Banheiros ao lado da pista de skate do CFO estão tomados por fezes e sujeira (Foto: Juscelino Filho/G1)

De acordo com a Sesporte, nem o estado, nem qualquer pessoa da comunidade estão autorizados a mexer na estrutura antes de a construtora concluir a obra. Questionado sobre os moradores terem arcado com as despesas, o secretário diz ser “difícil ter acontecido porque cada conjunto de iluminação custa de R$ 3 a R$ 4 mil”. Ainda conforme Barbosa, o estado não pode gastar recurso público com isso. “Não faz sentido autorizar obra e reparar iluminação, se a construtora vai ter que fazer um pente fino antes de entregar”, frisou.

Euler Batista garante que a secretaria dá aporte a todos os eventos organizados pelos moradores do entorno. Já o líder comunitário Ruinaldo Lopes alega que “a Sesporte não dá nenhum apoio à comunidade”.

O G1 tentou contato com a Galvão Engenharia, mas ninguém atendeu no telefone do escritório em Fortaleza. Em contato com a empresa em São Paulo, a reportagem foi informada de que não há mais uma assessoria de comunicação ligada à construtora.

A Galvão Engenharia está na lista das dez maiores empreiteiras do país que já tiveram executivos presos na Operação Lava Jato.

‘Não há um equipamento desse porte no Brasil’

Com área de 45 mil m² e investimento de R$ 250,4 milhões, o CFO começou a ser construído em agosto de 2013. O primeiro prazo a ser cumprido para entrega do Centro de Formação Olímpica era dezembro de 2014, último mês da gestão de Cid Gomes. No entanto, o equipamento foi inaugurado sem estar plenamente pronto.

Depois, o Governo previu a entrega de 100% da obra em março de 2015. A estimativa ainda apontou para junho. Como não ficou pronto, o prazo se estendeu para o início de setembro. Sem sucesso. Parte dos Jogos Escolares da Juventude foi disputado sem que o local estivesse pronto. No entanto, as competições não foram atrapalhadas. A sexta previsão datava para entrega do equipamento em março de 2016. Ao fim de junho de 2016, a obra foi entregue para o Governo do Estado ainda incompleta.

Em junho deste ano, o governador Camilo Santana declarou, em pronunciamento no Facebook: “Estamos já trabalhando com algumas parcerias. Em breve vamos inaugurar oficialmente o CFO com uma programação. O Centro não é apenas do Ceará. É do Nordeste inteiro. Não há um equipamento desse porte no Brasil. Em breve, o CFO vai estar oficialmente inaugurado. Não gosto de inaugurar equipamento sem colocar um destino para ele no funcionamento. Em breve, em parceria com a universidade, parceria com a iniciativa privada, vamos lançar uma programação para o CFO com a população de Fortaleza e do Ceará.”

 (Foto: Gleison Oliveira/ G1)  (Foto: Gleison Oliveira/ G1)

(Foto: Gleison Oliveira/ G1)

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