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“Eu doei os óvulos, ela engravidou, nós duas amamentamos”

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Quando recebeu a reportagem de EL PAÍS em seu apartamento em São Paulo, a jornalista Julia Gutnik, 33, tinha acabado de amamentar Gabriel, o filho recém-nascido, de quase dois meses. Segurando o bebê nos braços, abriu a porta com a outra mão. Logo em seguida, chegou sua companheira, a publicitária Mariana Quintanilha, 35, com Stella, irmã gêmea de Gabriel, nos braços. “Ela terminou de mamar agora mesmo”, disse a mãe, orgulhosa. Os bebês nasceram do ventre de Julia, mas ambas as mães são capazes de amamentá-los.

Julia e Mariana estão juntas há oito anos. Namoraram por seis meses e casaram-se em seguida. “Tem uma piada que diz que a mulher, no segundo encontro, já vai com o caminhão da Granero”, diz Mariana, rindo, mencionando o caminhão de mudança e a ânsia por casar. Foi mais ou menos assim com elas. E no início do relacionamento, ambas passaram pelo que muitos casais gays passam: a dificuldade de contar para a família, o problema da aceitação e – no caso de mulheres – a questão com a maternidade. Antes  de conhecer Mariana, Julia dizia que, se casasse com uma mulher, não teria filhos. “Eu dizia que a cabeça da criança ficaria bagunçada”, conta. “Até o dia em que um amigo meu me perguntou ‘você faz terapia há quanto tempo?’, e eu respondi ‘desde os sete anos’, e ele então me perguntou se meus pais eram gays e eu disse que não. E ele disse ‘então, você tinha outras questões para resolver, assim como seus filhos também terão, independentemente da opção sexual dos pais”. Naquele momento, Julia, que sempre quis ser mãe, começou a cogitar melhor a possibilidade da maternidade junto a uma mulher.

Com a ideia amadurecida, decidiram então propor a um amigo que doasse o esperma para que fosse feita a inseminação artificial. “Ele obviamente não topou”, diz Julia. “Se ter duas mães já é difícil, imagina duas mães e um pai?”, questionou o amigo. Elas se convenceram de que o melhor caminho seria ir atrás de um banco de sêmen. “Aquilo foi a coisa mais bizarra de todo o processo”, conta Julia. Ela conta que eram duas as possibilidades: acessar um banco brasileiro ou um norte-americano. O estrangeiro era muito mais completo, de acordo com ela. Continha, por exemplo, histórico de doenças dos avós e bisavós, propensões genéticas a enfermidades, gostos e preferências pessoais e até a nota que o doador anônimo tirou para entrar na universidade. “Mas era estranho escolher coisas como cor dos olhos e do cabelo”, conta Mariana. “Parecia que se tratava de um produto”, emenda Julia. Ainda assim, o banco de sêmen era a opção mais viável e elas decidiram pelo banco norte-americano por ter informações mais detalhadas.

Feita as escolhas, começava então o tratamento, comum a qualquer mulher que deseja engravidar pelo método da reprodução assistida. Hormônios, consultas, acompanhamento e, enfim, a inseminação, que, no caso delas, seria com os óvulos de Mariana, no útero de Julia. “Eu tinha vontade de ver a barriga crescer”, conta Julia. O processo todo custa cerca de 30.000 reais. Elas o repetiram por três vezes até que Julia engravidasse. “Na primeira vez que tentamos, achávamos tanto que daria certo, que preferimos colocar somente um embrião, com medo de termos gêmeos”, diz Mariana, rindo. Demorou um ano para que Julia conseguisse engravidar. “Durante aquele tempo, eu me perguntava se a ciência estava tentando nos dizer que aquilo não era natural e por isso não estávamos conseguindo”, lembra Julia. Quando engravidou, logo descobriu que eram gêmeos. “Eram dois corações batendo. Foi muito emocionante”, conta Mariana.

“[Saber] que um filho meu sairia de dentro da mulher da minha vida, isto é lindo”, diz Mariana

Até hoje, ela se recorda da sensação de saber da notícia. “A ideia de que tinha um pedacinho meu dentro da Julia era muito mágico”, conta. “E que um filho meu sairia de dentro da mulher da minha vida, isto é lindo”, diz. Mas elas queriam mais do que isso. Mariana desejava poder amamentar as crianças, assim como Julia o faria. Ela então começou a procurar como poderia realizar este desejo. “Não tinha muita coisa sobre isso nem na internet, só alguns textos gringos”, lembra. Descobriu que a chamada indução da lactação consistia em um tratamento que incluía a ingestão de determinados hormônios, um medicamento cujo efeito colateral é a produção de leite e os lactogogos, alimentos e bebidas que, acredita-se, estimulam a produção do leite na mulher. Por exemplo, a tintura da flor do algodão. “A Mari toma, e eu também, mas eu tomo só de onda”, conta Julia. Além disso, todos os dias Mariana fazia estímulos com uma bombinha.

Com o passar do tempo, algumas gotas de leite começaram a sair. “Mas a amamentação é um processo emocional”, conta Mariana. Como os bebês nasceram prematuros, as mães tiveram que tirar leite e deixar no banco de leite da maternidade ao longo dos 22 dias que eles permaneceram internados na UTI neonatal e recebiam o alimento por uma sonda. “O dia em que estávamos no banco de leite e começou a sair leite de verdade de mim, nós duas demos as mãos e começamos a chorar. Foi muito emocionante”, conta Mariana.

Os desafios além do leite

Não foram somente os tratamentos realizados pelas mães ou a explosão de hormônios à qual ambas foram expostas – “é muito penoso, engordei um monte, ficamos loucas, brigávamos nem sabíamos por quê”, conta Julia – ou a “bizarrice” do banco de sêmen que elas enfrentaram nesta jornada. Alguns obstáculos burocráticos também surgiram no caminho. Quando os bebês nasceram, o hospital não sabia, por exemplo, como lidar com o cartão de identidade das crianças que tinham duas mães. O nome de Mariana foi colocado à mão, depois que a etiqueta já havia sido impressa somente com o nome de Julia. Além disso, a presença de Mariana foi barrada no banco de leite da UTI neonatal, porque o hospital não sabia como proceder com o fato de as crianças terem duas mães. E que ambas iriam amamentar. A médica delas precisou entrar em contato com o chefe da UTI, que rapidamente autorizou a entrada das duas. “Gostamos de ser as primeiras em tudo”, diz Julia, rindo.

Tudo acabou sendo contornado, mas ainda hoje, quase dois meses depois do nascimento dos filhos, Mariana ainda espera tramitar seu processo pelo pedido de licença maternidade no INSS. Apesar disso, o local onde ela trabalha, uma agência de publicidade, concedeu a licença independentemente do trâmite com o Governo. “Ainda não há lei para isso, mas há jurisprudência”, conta Mariana. “Eu tenho o privilégio de trabalhar em um lugar legal, mas fui atrás de uma advogada para pedir a licença maternidade via INSS porque temos que forçar o sistema a entender que a gente existe”.

Se as mães se depararam com estes obstáculos que um casal heterossexual não precisa lidar, por outro lado, destacam uma vantagem que somente um casal de mulheres em licença maternidade poderia ter: a companhia uma da outra. “Eu nunca teria estrutura emocional para ser uma mãe heterossexual, que, depois do parto chega em casa, e fica sozinha”, diz Julia. “É muito difícil enfrentar todas essas mudanças sem alguém do lado o tempo todo”. A experiência, para as duas, tem sido visivelmente positiva. Por isso, elas já fazem planos de embarcar mais uma vez nesta aventura, desta vez pelo caminho inverso: Mariana quer engravidar com os óvulos de Julia. Ainda não sabem quando, mas Mariana sinaliza: “Eu estou guardando as roupinhas dos bebês, caso a gente tenha outros depois”.

EL PAÍS

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