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Temer e Lula, os irmãos camaradas

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Você meu amigo de fé, meu irmão camarada (…)/Me lembro de todas as lutas, meu bom companheiro/Você tantas vezes provou que é um grande guerreiro/O seu coração é uma casa de portas abertas/Amigo, você é o mais certo das horas incertas/Às vezes em certos momentos difíceis da vida/Em que precisamos de alguém pra ajudar na saída/A sua palavra de força, de fé e de carinho/Me dá a certeza de que eu nunca estive sozinho.”

Essa letra de Roberto Carlos, composta há 40 anos em homenagem a Erasmo Carlos, me lembrou a camaradagem recente e de ocasião entre Lula e Temer. No fim de junho, Lula defendeu Temer para uma rádio do Acre: “Se o procurador-geral da República tem uma denúncia contra o presidente da República, ele primeiro precisa provar. Tem de ter provas materiais. Falo isso porque já cansei de ser achincalhado sem ninguém apresentar nenhuma prova. Não adianta dizer que a pessoa cometeu um erro. Até agora Temer é inocente. O Janot não provou nada”.

O ex-presidente Lula acaba de ser condenado por corrupção passiva a nove anos e meio de prisão e vai recorrer. O atual presidente Temer acaba de comandar manobras imorais na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) para tentar se livrar da investigação mais grave já aberta contra um governante na história do Brasil. Ambos se consideram vítimas inocentes de delações ilícitas e mentirosas. Ambos se sentem vítimas de conspirações políticas e judiciárias, sem provas materiais.

Os brasileiros, no íntimo, não acreditam que a condenação de Lula pelo tríplex do Guarujá – ou futuramente pelo sítio de Atibaia – acabe resultando em prisão, mesmo que ele seja impedido de, como réu, se candidatar em 2018. Nem o juiz Sergio Moro ousou decretar prisão preventiva. E Lula já se prepara para sair em caravana no Nordeste. Os documentos sobre o tríplex e o sítio continuam a ser pouca coisa diante da corrupção na Petrobras e da escandalosa promiscuidade com empreiteiras como a Odebrecht e a OAS, envolvendo valores muito mais altos.

Os brasileiros, no íntimo, também não acreditam que o plenário da Câmara, no dia 2 de agosto, contrarie a CCJ e acabe mandando a denúncia contra Temer para o Supremo Tribunal Federal. É que, no íntimo, não se acredita mais em nada. São necessários 342 votos de deputados a favor de ao menos se investigar Temer. Ignorar a delação de Joesley Batista e tudo que circundou esse encontro – de malas de dinheiro a favores – desmoraliza a Lava Jato. Mas nossos representantes nem estão aí.

A camaradagem entre o PT e Temer já havia sido selada por Dilma Rousseff, quando o peemedebista foi escolhido para vice em 2014. Vale a pena ver de novo os vídeos de Dilma no palanque: “Eu tenho um companheiro de chapa, um vice que é uma pessoa experiente, séria (abraços, sorrisos, aplausos de todos e de Lula), que tem uma tradição política, que eu tenho certeza que saberá somar e me substituir à altura quando nós tivermos de viajar para fora do Brasil. O meu vice não caiu do céu, não é um vice improvisado. É uma pessoa competente e um homem capaz”. Lula ergue o punho, Temer também, junto com Dilma. “Um homem capaz de dialogar, de fazer consenso, sobretudo um homem leal, um grande brasileiro. Agradeço a meu parceiro de todas as horas, meu vice Michel Temer.”

Quem estava colado a Lula nesse palanque? Sérgio Cabral, outro amigo de fé e irmão camarada, rindo e fazendo coraçãozinho para a plateia. O mesmo que, agora, preso, enfrenta mais uma acusação, de chegar a ter US$ 120 milhões numa conta no exterior. Em depoimento formal à Justiça, chamou de “uma maluquice essa história de 5%” de comissão em cima de obras no Rio de Janeiro.

O “perseguido” Cabral disse ao juiz Marcelo Bretas, em tom de deboche: “Eu não matei Odete Roitman”. Uma alusão à novela da TV Globo Vale tudo, que conquistou o Brasil em 1988 e 1989. A morte de Odete Roitman (a vilã interpretada por Beatriz Segall) registrou 81 pontos no Ibope. A trama abordou “até que ponto valia ser honesto no Brasil”, disse um de seus autores, Gilberto Braga. Continua valendo tudo, menos ser honesto.

Todos os personagens do nosso presidencialismo de cooptação – e que se incluam aí Aécio Neves, seu relator de estimação da CCJ Abi-Ackel e o resto dos tucanos, bichos em extinção em cima do muro –, amigos de fé, irmãos camaradas, todos eles mataram Odete Roitman.

Mataram nossa crença em algum resquício de ética política. Se a Justiça, com suas instâncias e seus braços, da Procuradoria ao Supremo, não punir de verdade os ladrões de verba pública, que as urnas façam a limpeza em 2018. Que espanem a velha política do conchavo e da propina institucionalizada. Que a camaradagem passe a ser do bem.

Época/Ruth de Aquino

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