ANAVITÓRIA: “NUNCA HOUVE O TEMPO QUE A GENTE PENSOU QUE NÃO IA DAR CERTO”

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Anavitória Capa (Foto: )
Anavitória Abre (Foto: )

Mesmo debaixo do sol escaldante de meio-dia, Ana Caetano, 24 anos, e Vitória Falcão, 23, não deixaram a animação em fazer sua primeira capa de revista ir embora. Ao som de Várias Queixas, música regravada pelos Gilson (filhos de Gilberto Gil), as meninas do duo Anavitória ficaram bem à vontade para o ensaio da QUEM na Casa 92, em São Paulo. Elas, que começaram a carreira em 2015, foram de Araguaína, interior do Tocantins, para a capital paulista, e esperaram um ano até lançarem o primeiro disco.

“Nunca houve o tempo que a gente pensou que não ia dar certo”, explica Vitória. “Viemos para São Paulo e já estávamos trabalhando com o Felipe Simas [empresário]. Houve o tempo do congelamento, eu acho que foi muito pensado da cabeça dele em saber que a gente era muito nova. [O vídeo de] Singular já estava crescendo muito na internet, era uma coisa bizarra de linda, mas a gente não estava fazendo show. A gente sabia que ia dar certo pela resposta das pessoas, mas a gente ia trabalhar quando?”.

Singular, o primeiro hit das duas, mencionado por Vitória, já tem quase 40 milhões de visualizações no YouTube. O vídeo foi publicado em março de 2015 e as meninas enviaram a canção para Felipe Simas, que abraçou o duo. O primeiro álbum, Anavitória, foi lançado por meio de um financiamento coletivo e produzido por Tiago Iorc. Na época, elas definiam seu som como “pop rural”. Agora, elas continuam pop, mas não tão rural assim.

“[Com a espera de um ano] A gente entrou com outra cabeça. Muito mais responsáveis, sabíamos muito mais o que íamos fazer”, conta Ana. “Demorou um pouco para a gente começar a trabalhar. Eu mudei para São Paulo em agosto de 2015, mas fomos começar a trabalhar de verdade em agosto de 2016. Eu passei um ano parada sem saber o que fazer. Muitas louças lavadas, criei um TOC de limpeza, que já estou curada (risos)”, brinca Ana.

Anavitória (Foto: Adriano Damas/ Ed. Globo)

MUDANÇA DE ESTADO
Da mesma cidade, Araguaína, com quase 180 mil habitantes, Ana e Vitória eram mais conhecidas do que amigas. O interesse pela música fez a amizade se fortalecer. Com o sucesso de Singular e a aposta de Simas, as duas se foram de Tocantins para São Paulo e moraram juntas até o final de 2017. A mudança não foi tão assustadora para Vitória, que já havia ido para Goiânia, em Goiás, e para a capital paulista, onde estudou teatro.

“Para mim foi bem mais difícil”, conta Ana. “Eu já tinha saído de casa e morava em uma cidade com 90 mil habitantes, menor do que a cidade que eu já morava. Fui fazer medicina. Eu cheguei em São Paulo e só conhecia a Vitória. Eu não tinha um ciclo social de nada, então foi difícil para me adaptar. A Vi já tinha os amigos do teatro, já tinha um rolê, então era mais fácil”.

Anavitória (Foto: Adriano Damas/ Ed. Globo)

APOIO DA FAMÍLIA
A carreira na música não parecia ser uma opção para Ana até o vídeo de Singular estourar. Ela já estava na faculdade de medicina e o apoio da família não foi imediato. “Meus pais sempre me acharam talentosa. Mas o talento virar uma profissão era outro rolê”, explica Ana. “Na nossa cidade é muito a cultura de médico e do engenheiro e é só isso que tem para fazer da vida. Eu estava na faculdade já fazia um ano e meio quando as coisas começaram a acontecer e eu decidi que ia largar. Para minha mãe foi um susto. Quando eu aceitei – porque também foi difícil para mim aceitar o que eu queria de verdade -, aí ela aceitou. Eu tinha medo, estava largando o certo pelo duvidoso. Nunca nem pensei em morar em São Paulo e de repente eu estava aqui fazendo música. Não sei se é porque a gente veio de uma cidade pequena, mas parecia tudo tão distante. Para as pessoas do eixo Rio-São Paulo é muito mais presente essa realidade de você poder ser artista. Para mim eu pensava que não tinha como”, acrescenta a jovem.

“Lá em Araguaína se você fala que vai fazer publicidade o povo ri da sua cara. ‘Faz o que com isso?”, diz Vitória. “Vai morrer de fome. Ninguém nem entende o que faz”, completa Ana.

Anavitória (Foto: Adriano Damas/ Ed. Globo)

Aos 15 anos, Vitória veio para São Paulo para trabalhar como modelo e também fez um curso de teatro em Goiânia, em Goiás. “Minha cabeça abriu. Como eu vou voltar para casa e fazer uma faculdade? Aconteceu isso. Com 18, eu voltei para casa, fiz um ano e meio de Direito. A cada três meses eu chorava tudo com meus pais: ‘Não vai dar para ficar nessa faculdade mais!’. Até o momento que eu falava muito para a Ana quando ela estava na faculdade: ‘Na hora que pulsar forte no seu coração a sua verdade, você vai saber explicar para eles’. No dia que eu bati os pés e falei: ‘Não vai dar para mim, não sei o que vai acontecer, talvez eu morra de fome, mas eu vou ter que tentar’, eles só falaram: ‘Então tá! Você tomou a sua decisão que gente estava esperando'”.

Anavitória (Foto: Adriano Damas/ Ed. Globo)

HATERS NAS REDES SOCIAIS
O perfil do duo, que conquistou o coração de Bruna Marquezine, já tem mais de 1,5 milhões de seguidores. “É impossível falar que não atinge, que não ligo [para as críticas]. Você presta atenção. No final das contas é a gente, como que você vai entrar na cabeça da pessoa? Não a conheço, ela também não me conhece. É algo meio indefinido”, diz Vitória.

Anavitória Aspas (Foto: )
Anavitória (Foto: Adriano Damas/ Ed. Globo)

Discretas, elas aprenderam a lidar com o assédio nas redes sociais. “No comecinho eu até me importava, mas não chegava a ficar triste. Sempre me incomodou a galera invadir seu espacinho. Acho que é porque somos meninas, mais novas, e as meninas também se identificam e querem saber muito da nossa vida, do que a gente faz ou deixa de fazer”, conta Ana.

“Os fãs raízes, os que a gente conhece, eles respeitam muito. A gente é muito de boa. Eu, principalmente, em relação a internet, tem dia que eu posto muito, tem dias que eu nem quero saber. Qualquer rede social é muito importante para que tudo se desenvolva, mas o que existe mesmo não está no Instagram. O restante acontece quando a gente faz show, vai no estúdio e a gente lida com isso dessa maneira. O Instagram é muito legal, mas não é uma obrigação”, completa Vitória.

Anavitória (Foto: Adriano Damas/ Ed. Globo)

FILME SOBRE O DUO
Lançado em agosto de 2018, o filme Ana e Vitória conta a história da dupla e o sucesso foi tanto que o longa-metragem já está disponível na Netflix. As cantoras interpretam a si mesmas e a história traz relacionamentos de todos os tipos, principalmente abordando a bissexualidade.

“Era um medo muito grande de falar sobre isso”, explica Ana. “A gente quase desistiu de fazer o filme um dia antes de fazer o filme de fato. ‘E se as pessoas tiverem preconceito de falar sobre esse assunto?’. É um tabu tão grande falar sobre isso. Eu lembro que uma amiga falou assim: que se a gente tinha medo das pessoas não gostarem, aí sim a gente ia ter que falar mesmo”.

Anavitória Aspas (Foto: )
Anavitória (Foto: Adriano Damas/ Ed. Globo)

Para Vitória, a visibilidade do duo é importante e deve ser usado para ir além da música. “Querendo ou não as pessoas dão ouvidos para quem elas admiram. Não é nem me gabando do trabalho, mas se tinha um jeito de falar desse assunto da maneira mais bonita, cuidadosa, leve e simples, a gente fez do jeito que a gente acredita. Tudo o que eu já assisti que fala sobre sexualidade ou gênero, qualquer tabu, é sempre muito estereotipado. No filme a única coisa que a gente fala é: não rotule. O amor é do jeito que faz sentido para você”, diz a jovem.

Ana também comenta sobre a repercussão da história nas redes sociais. “Eu recebi várias mensagens de meninas que falaram que foi muito legal fazer os pais assistirem ao filme e foi tranquilo, que não foi um constrangimento. Foi importante no final das contas. Teve muita gente também que entendeu o que a gente quis falar, que se identificou. ‘Realmente, eu não preciso falar que sou uma coisa ou outra, eu posso ser o que eu quiser, a qualquer hora’”.

Anavitória (Foto: Adriano Damas/ Ed. Globo)

REAÇÃO DA FAMÍLIA
Além do medo do preconceito, as meninas também lidaram com a reação dos pais e familiares com o filme. Ana revela que não contou os detalhes da produção para a mãe até o filme sair. “Ela perguntou quem ia ser meu parzinho romântico e eu fiquei enrolando. Vários parzinhos românticos (risos). Fiquei muito nervosa de falar para ela. Quando ela viu ficou enlouquecida, falou várias, mas aí também foi uma porta para eu falar disso [sexualidade]com a minha mãe. A gente conversou muito. Ela não pensa igual a mim, nem nada, mas foi super massa”.

Anavitória Aspas (Foto: )
Anavitória (Foto: Adriano Damas/ Ed. Globo)

No filme, Ana, que interpreta a si mesma, faz par romântico com Clarissa Müller (que participou de Malhação: Vidas Brasileiras) e Caíque Nogueira. Já Vitória, que protagoniza o outro casal principal da obra ao lado de Erika Mader, a reação da família foi um pouco mais dura.

“Minha mãe é da igreja, tem coisas que para ela são inaceitáveis. Do jeito que eu milito na vida, minha filha, eu milito com a minha mãe. Aos poucos você vai vendo que, do mesmo jeito que eu quero que ela tenha respeito comigo e com os assuntos que eu quero introduzir para ela e que ela não entende, eu tenho que entender o movimento dela. A gente vai se encontrando e dando um jeito de se conectar, mesmo sendo de diferentes épocas. É muito real para as pessoas da nossa geração. É ter um cuidado e paciência que temos que ter. Tem que saber conversar”, explica a cantora.

Anavitória Aspas (Foto: )
Anavitória (Foto: Adriano Damas/ Ed. Globo)


Em novembro de 2018, Ana e Vitória lançaram o cover de Oceans (Where My Feet May Fail), hit gospel da banda Hillsong United. “Eu não sou de nenhuma religião. Eu já fui, cresci na igreja, mas não me identifico com nenhuma. Mas eu tenho uma coisa muito forte e poderosa no meu coração, não sei o que é e nem dou nome, mas está comigo e eu acredito. É a mesma coisa que me fez me juntar com a Vitória, eu só sei que ela existe”, explica Ana.

“É meio que a mesma coisa. Óbvio que tem uma característica muito forte de um Deus cristão, porque eu cresci e vivi muito tempo na igreja. Tem algo fixado em mim. Hoje em dia eu não classifico muito. Eu só sei que eu acredito que existe uma força maior, mas a gente tem muita fé e é muito conectada”, completa Vitória.

O TEMPO É AGORA
Ana e Vitória estão em turnê divulgando o novo CD, lançado de surpresa em agosto (junto com o filme). O Tempo É Agora, também produzido por Tiago Iorc, foi gravado nos Estados Unidos e traz canções mais maduras e uma sonoridade diferente do pop rural que as meninas exploraram no primeiro disco, acrescentando outros instrumentos além da voz e violão.

“Ele é um disco mais maduro, porque a gente também cresceu”, conta Ana. “A gente já fala de outras coisas, já nos entendemos de outra maneira. Amadureci muito como mulher, artista. Eu acho que isso reverbera muito no disco e sentimos uma vontade muito grande de fazer alguns sons no palco. O primeiro disco era todo rural, mais violão, mais quietinho. Fomos buscar referências nas grandes canções dos anos 1990. Foi supermassa sair um pouco da caixinha. É muito engraçado ver gringo fazer música brasileira, porque eles exploram lugares que a gente não exploraria organicamente”.

Anavitória Aspas (Foto: )
Anavitória (Foto: Adriano Damas/ Ed. Globo)

Para Vitória, não houve tanta pressão em fazer um segundo disco que superasse as expectativas em relação ao primeiro. “A gente já tinha tão firmado o que a gente queria para o segundo disco que foi tudo fluindo. Viver dois anos em turnê para entender o nosso som e saber o que queríamos foi muito bom. Se superou ou não, foi a nossa verdade do momento, ficamos muito felizes em ser aquilo ali. Foi muito massa, [a turnê]tem sido incrível”.

AUTOACEITAÇÃO
Com uma verdadeira legião de fãs, Ana e Vitória sabem que são exemplo para tantas meninas que as admiram. Além das questões de sexualidade e gênero, as cantoras também falam bastante sobre autoaceitação nas redes sociais.

“Eu sou a pessoa que mais tem probleminha com isso. Eu sou zero bem resolvida. Estou melhorando. Eu odiava meu olhinho caído, agora eu acho ele um charme. Já entendi que ele é meu”, brinca Ana. “Acho que quando a gente se entende como indivíduo único no mundo é quando as coisas começam a fazer sentido. Quando eu percebi que não tinha outra Ana… Não tem como ser melhor ou pior do que isso, porque não tem uma comparação de mim mesma, só tem eu e é isso”.

Anavitória Aspas (Foto: )

“Minha parada foi mais com o cabelo. Teve uma época que eu alisei e foi minha época de desconstrução, porque o cabelo falava muito do que havia dentro [de mim]. Foi muito grandioso na minha vida. De se entender gente e mulher no mundo”, conta Vitória.

PRIMEIRO CACHÊ
Morando em São Paulo, em apartamentos diferentes, Ana e Vitória se divertem ao lembrar com o que gastaram os primeiros cachês do duo. “A primeira grana que caiu a gente fez uma viagem. Foram as nossas primeiras férias. Alugamos uma casa linda no Rio”, diz Vitória. “Quando eu ganhei meus primeiros direitos autorais, caiu 3 mil reais na minha conta. Eu pensei em trocar de celular, mas não troquei, porque não precisava. No outro dia eu fui assaltada”, conta Ana, que quer construir sua própria casa com um estúdio.

Anavitória (Foto: Adriano Damas/ Ed. Globo)

CRÉDITOS
Fotos: Adriano Damas
Assistente de fotografia: Vitor Bossa
Designer de capa: Gabriel Pontes
Maquiagem: Marilio Bitarello
Styling: Carol Roquete
Camareira: Lindalcy de Lima

LOOKS

Look capa
Ana: camisa Fabiana Milazzo, blazer Frou Frou, colares Pandora.
Vitória: camisa Água de Coco, calça Vitor Zerbinato, cinto Love 1985, brincos Minha Avó Tinha, pulseira Pandora.

Look vestido/camisa e camisa/colete
Ana: camisa e vestido B. Luxo, botas Corcel, cinto Love 1985, colares Pandora.
Vitória: camisa e colete B.Luxo, calça Vitor Zerbinato, brincos Minha Avó Tinha, botas Corcel, pulseiras Pandora.

Look vestido dourado e vestido amarelo
Ana: camisa B.luxo, vestido Bo.Bô, acessórios Pandora.
Vitória: vestido Frou Frou, pulseiras Pandora, cinto e brinco Minha Avó Tinha.

Look vestido branco e vestido azul/salmão
Ana: camisa Vicunha, vestido Zara, botas Corcel, colares Pandora.
Vitória: camisa Vitor Zerbinato, vestido Água de Coco, cinto Love 1985, botas Corcel, pulseiras Pandora, brinco Minha Avó Tinha.

Anavitória (Foto: Adriano Damas/ Ed. Globo)
Anavitória (Foto: Adriano Damas/ Ed. Globo)
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