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A Bolívia sob o risco da radicalização

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Católico fervoroso, sem cargo político ou filiação partidária, o boliviano Luis Fernando Camacho, presidente do Comitê Cívico de Santa Cruz, orquestrou em tom ascendente a sinfonia de violentos protestos e greves que culminaram na renúncia do presidente Evo Morales. Em três semanas, Camacho tornou-se o rosto mais visível e a voz mais eloquente da radicalização que novamente põe o país sob risco.

Ele agora tenta dar as cartas do jogo político, valendo-se do vazio de poder que se abate sobre a Bolívia, sem presidente, vice, presidentes do Senado e da Câmara. Alardeou uma suposta ordem de prisão contra Morales — negada pela polícia — , propôs uma junta de notáveis, com a inclusão de militares, para governar o país e convocou mais dois dias de mobilizações no país.

Aos 40 anos, também conhecido como Macho Camacho, tem sempre um exemplar da Bíblia a tiracolo e abusa da retórica incendiária. Ressalta que persegue a justiça divina e não a vingança para seus detratores: “Vamos começar os julgamentos aos delinquentes do partido do governo, colocando-os na prisão.”

Advogado, Camacho se elegeu em abril líder do comitê cívico da próspera região de Santa Cruz, que reúne entidades empresariais e de trabalhadores que se opõem às diretrizes do governo de Evo Morales. O cargo também fora ocupado pelo pai na década de 1980. Dono de um discurso messiânico, cheio de referências religiosas e alardeado nas redes sociais, seu clamor pela renúncia de Morales ficou claro logo após eleições de outubro, em que o presidente se candidatava ao quarto mandato consecutivo.

Enquanto os votos eram apurados num processo que originou dois resultados diferentes — a realização de um segundo turno e, depois, a vitória de Morales no primeiro turno — , Camacho já pregava a destituição do presidente no cargo há mais de 13 anos.

Rapidamente, ele se sobrepôs a Carlos Mesa, o principal adversário do presidente no pleito, que lidera a ala moderada da oposição. Convocou greves por tempo indeterminado, tentou, sem sucesso, entrar no Palácio Quemado, a sede do Governo, em La Paz, para entregar os termos da renúncia de Morales, que ele próprio redigiu.

Neste domingo, logo após o pronunciamento do presidente anunciando a saída, Camacho conseguiu o feito. Vagou pela sede da presidência e ajoelhou-se diante do escudo boliviano, munido da Bíblia e da carta da renúncia presidencial.

Luis Fernando Camacho, líder de oposição, cumprimenta apoiadores durante entrevista coletiva em La Paz — Foto: Reuters/Luisa GonzalezLuis Fernando Camacho, líder de oposição, cumprimenta apoiadores durante entrevista coletiva em La Paz — Foto: Reuters/Luisa Gonzalez

Luis Fernando Camacho, líder de oposição, cumprimenta apoiadores durante entrevista coletiva em La Paz — Foto: Reuters/Luisa Gonzalez

Nos 20 dias que se seguiram às eleições, a oposição aparenta estar sob o domínio de Luis Fernando Camacho e sua direita religiosa, disposta à radicalização. Agora, sem os representantes dos principais poderes que assegurem a legitimidade constitucional, a Bolívia está sob risco de soluções improvisadas, que tendem a direcioná-la a uma encruzilhada de instabilidade perigosa e já conhecida.

Por Sandra Cohen

Especializada em temas internacionais, foi repórter, correspondente e editora de Mundo em ‘O Globo’

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