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Auditores fiscais da Receita protocolam manifesto contra ‘mordaça’ na atuação da categoria

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Por Alexandro Martello, G1 — Brasília

Auditores Fiscais protestam contra emenda que limita trabalho de investigação da categoria
Jornal Hoje
Auditores Fiscais protestam contra emenda que limita trabalho de investigação da categoria

Auditores Fiscais protestam contra emenda que limita trabalho de investigação da categoria

Auditores fiscais da Receita Federal protocolaram nesta terça-feira (21), no Ministério da Economia, um manifesto contra o que consideram ser uma “mordaça” à atuação da categoria.

O protesto é contra a emenda, aprovada em comissão do Congresso, que limita as atividades dos auditores. Durante a tramitação da medida provisória da reforma administrativa, parlamentares decidiram incluir no texto um dispositivo que proíbe auditores da Receita de investigar crimes que não sejam de ordem fiscal.

O manifesto da categoria foi entregue ao secretário-executivo adjunto do Ministério da Economia, Miguel Ragone de Mattos. Antes, os auditores fizeram um ato público no prédio, contra a “restrição à autoridade tributária do país no combate à corrupção”.

Os auditores disseram que esta terça é o “dia nacional contra a mordaça na Receita Federal”, que prevê atos também no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Argumentos

Em seu manifesto, os auditores fiscais disseram que a emenda incorporada à medida provisória “fere de morte um dos principais braços institucionais de combate aos chamados ‘crimes de colarinho branco’, representando um inimaginável retrocesso para a sociedade brasileira”.

A categoria afirmou ainda que a Receita Federal atua na apuração de ilícitos tributários, muitas vezes relacionados a outros tipos de crimes.

“No entanto, a se manter o teor do texto, caso auditores, durante procedimento fiscal, constatem indícios de quaisquer outros crimes, essas informações não mais poderão ser repassadas, sem ordem judicial, aos órgãos ou autoridades competentes, sepultando as possibilidades de cooperação interinstitucional que, em anos recentes, se mostraram vitais para o aperfeiçoamento da gestão pública e da democracia brasileira”, afirmaram os auditores no documento.

Os profissionais argumentaram também que o “desmonte” de uma “estrutura duramente construída para adequar o Brasil à prática internacional de combate à lavagem de dinheiro, e outros crimes financeiros, representa uma involução inaceitável”.

Veja a íntegra do documento

“MANIFESTO

CONTRA A MORDAÇA

NA RECEITA FEDERAL

Os signatários deste documento vêm manifestar o seu inconformismo e repúdio em face da tentativa, em curso no Congresso Nacional, de suprimir competências importantes da Receita Federal e de silenciar os Auditores-Fiscais quando, no legítimo exercício de suas atribuições, estes se depararem com crimes como lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas. A emenda incorporada à Medida Provisória 870/2019 fere de morte um dos principais braços institucionais de combate aos chamados “crimes de colarinho branco”, representando um inimaginável retrocesso para a sociedade brasileira.

A Receita Federal atua na apuração de ilícitos tributários, muitas vezes relacionados a crimes conexos com a sonegação. No entanto, a se manter o teor do texto, caso Auditores, durante procedimento fiscal, constatem indícios de quaisquer outros crimes, essas informações não mais poderão ser repassadas, sem ordem judicial, aos órgãos ou autoridades competentes, sepultando as possibilidades de cooperação interinstitucional que, em anos recentes, se mostraram vitais para o aperfeiçoamento da gestão pública e da democracia brasileira.

A MP 870/2019 tem como objeto a reestruturação de órgãos do Poder Executivo Federal. O artigo 64-A, incorporado durante tramitação em comissão especial do Congresso, surgiu como um corpo estranho ao texto original. Tão estranho que foi prontamente identificado no Congresso como “jabuti”, termo usado para designar alterações que não têm pertinência com o tema proposto. Para o Ministério Público Federal, a emenda é inconstitucional e ilegal, configurando-se como grave desvio de finalidade.

Destacamos que o Brasil é signatário da Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção, tendo assumido perante a comunidade internacional responsabilidade em prevenir e combater a lavagem de dinheiro e a corrupção por todos os meios ao seu alcance. Nesse contexto, o Brasil tornou-se membro efetivo do GAFI (Grupo de Ação Financeira contra a Lavagem de Dinheiro e o Financiamento do Terrorismo), órgão internacional que define crimes fiscais como conexos à lavagem de dinheiro, e considera imprescindível o engajamento das autoridades fiscais na prevenção e repressão a esses ilícitos.

Para a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), Auditores Tributários desempenham papel fundamental na detecção e identificação de indícios de lavagem de dinheiro e de corrupção. No instante em que o nosso país pleiteia o ingresso nessa importante organização, a iniciativa de coibir a atuação da Receita Federal constitui um ato incoerente e desarrazoado, que atenta contra princípios encampados pelos atuais países-membros.

No Brasil, a Receita Federal desenvolveu ao longo dos últimos anos expertise e um aparato completo para atuar em conjunto com outras instituições na investigação a crimes financeiros conexos a infrações fiscais. A Receita Federal tem assento no COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) e participa ativamente da ENCCLA (Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro), possuindo desde 2014 laboratório de tecnologia contra a lavagem de dinheiro, com área de inteligência fiscal voltada especialmente à identificação desse ilícito, pelo seu evidente reflexo tributário.

Nesse contexto, consideramos que desmontar toda uma estrutura duramente construída para adequar o Brasil à prática internacional de combate à lavagem de dinheiro e outros crimes financeiros representa uma involução inaceitável e configura o descumprimento de compromissos assumidos não apenas em organismos multilaterais, mas sobretudo com a sociedade brasileira e com as nossas instituições. Num momento em que o país clama por mudanças no cenário político e punição rigorosa aos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, amordaçar os Auditores-Fiscais é sabotar o Brasil e a esperança do nosso povo em dias melhores”.

MCCE – Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral

Observatório Social do Brasil

MBL – Movimento Brasil Livre

Jurista Modesto Carvalhosa

ANPR – Associação Nacional dos Procuradores da República

Conamp – Associação Nacional dos Membros do Ministério Público

Fonacate – Fórum Nacional Permanente de Carreiras Típicas de Estado

Febrafite – Federação Brasileira de Associações de Fiscais de Tributos Estaduais

Conacate – Confederação Nacional das Carreiras Típicas de Estado

Anfip – Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil

AAFITSP – Associação dos Auditores-Fiscais Tributários do Município de São Paulo

Anafisco – Associação Nacional dos Auditores-Fiscais de Tributos dos Municípios e Distrito Federal

SindafSP – Sindicato dos Auditores-Fiscais Tributários do Município de São Paulo

Sindifisco Nacional – Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil

Unafisco Nacional – Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil

G1
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