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Crianças que comem com celular podem ter distúrbios alimentares, alertam especialistas

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Além das consequências mentais e sociais, outros danos percebidos são problemas de ordem motora. Segundo a psicóloga clínica e neuropsicóloga do ambulatório de Psiquiatria Geral do Hospital Universitário Walter Cantídio, Hilzanir Machado, as crianças que ela já atendeu no Ceará apresentavam prejuízos dessa ordem.

“A criança acha mais fácil digitar, só colocar o dedinho ali, então, a coordenação motora fina está ficando bloqueada, entendeu? Porque na coordenação motora fina você pega no lápis, faz a letra cursiva e é difícil, é trabalhoso, é mais fácil digitar, botar o dedinho na tecla. Então, está dando atraso escolar”.

Prejuízos físicos alarmantes 

Pesquisas realizadas pelo Delete, núcleo especializado em nomofobia do Instituto de Psiquiatria da UFRJ, identificaram que crianças vem desenvolvendo problemas de hérnia de disco e outras doenças na coluna por causa da postura inadequada diante dos dispositivos.

SÉRIE ‘NOMOFOBIA: DEPENDENTES DIGITAIS’

“Geralmente, crianças com 10 anos, que são nativos digitais, já começam a ter problemas de articulação, problemas de coluna porque sempre usaram a tecnologia de uma maneira errada e os pais, como as tecnologias entraram na vida deles nos anos 90 pra cá, não sabem como educar essas crianças”, afirma a psicóloga Anna Lucia Spear, pioneira no país no estudo do vício patológico em celular.

Você precisa utilizar telas (celular, TV, etc) para que seu filho coma?

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by: intera

Distúrbios alimentares no uso disfuncional do celular

A psicóloga Tamara Maia, especialista no público infanto-juvenil, explica que existem duas situações: “ou é uma criança que passa a comer demais sem se dar conta do que está comendo, então ela quer ingerir ali de uma forma muito simples, normalmente uma pizza, um hambúrguer, um refrigerante, o que for mais prático pra ela, ou é uma criança que não quer comer porque comer é perder tempo”.

A nutricionista materno-infantil Marina Linhares explica que as crianças que comem na frente de telas não desenvolvem o vínculo necessário com as refeições e, por isso, dificilmente, vão encarar qualquer momento de alimentação como parte da rotina de forma natural.

Se ela não percebe o que está comendo, não vai ter ligação com a alimentação e isso pode levar a má nutrição

“A partir do segundo, terceiro ano, a criança passa a ser mais seletiva e se for exposta a alimentos mais doces, ou frituras, vai querer comer muito isso, porque é mais rápido”. Além disso, quando as crianças muito ligadas às telas demonstram preferências alimentares, os pais tendem, por praticidade, a oferecer mais essas comidas.

“Desmame digital”

Uma das clientes atendidas pela nutricionista, a servidora pública Larissa Marques, conta que acabou introduzindo o celular na rotina alimentar da filha Júlia pouco depois do nascimento dela.

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“Aos 2 meses, ela começou a ter um problema de refluxo, não comia, e a gente não sabia o que ela tinha. Nesse período, a gente fez o possível e impossível para fazê-la comer”, conta Larissa Marques, sobre a inclusão do celular na rotina.Arquivo pessoal
Quando a gente chegou no diagnóstico aos 5 meses, ela já estava viciada no celular e a gente quis deixar pra que ela ganhasse peso e tivesse desenvolvimento normal. Quando a gente ia dar a mamadeira, ela não aceitava, e quando botava a TV ou o celular, passava a aceitar

Para diminuir a dependência, a mãe procurou ajuda de uma especialista. Hoje, Júlia tem 1 ano e, aos poucos, está passando pelo processo de “desmame digital”. Larissa afirma que não é uma ação fácil.

“Fiquei super relutante, com medo dela perder peso. Às vezes dá certo, as vezes não dá. Hoje, ela almoçou sem ver celular, ontem à noite, pra tomar a mamadeira, foi com TV”, explica. A servidora afirma, ainda, que está tentando conduzir o processo sem ser brusca mas é um trabalho, também, de conscientização pessoal e íntima. “A verdade é que tem muita ansiedade minha como mãe de querer vê-la comer tudo e isso atrapalha um pouco”, confessa.

Quando os prejuízos são nutricionais, Marina Linhares dá orientações importantes. Os pais devem incentivá-la a “tocar, cheirar, sentir a textura dos alimentos” para evitar a necessidade do uso da tela ou outro artifício. Para ela, “a hora de comer deve ser como o momento de tomar banho, uma relação positiva e normal”.

O ideal é que, desde a introdução alimentar, aos 6 meses, a criança mantenha uma relação próxima ao alimento.

Caso a rotina das telas já esteja estabelecida na casa, é possível revertê-la, com paciência, e as estratégias precisam envolver a rotina alimentar não só da criança, mas de toda a família, principalmente, até antes dos 7 anos de idade, quando as mudanças tendem a ser mais efetivas e menos traumáticas.

“Os pais precisam trabalhar a aproximação das crianças com a comida, levá-la para o supermercado para tocar nos alimentos, fazer receita com os filhos”. Além disso, a nutricionista afirma que os pequenos “precisam ver os pais se alimentando, não adianta o pai querer que o filho coma verdura, se ele não come”.

Linhares afirma que vem conseguindo bons resultados, no consultório, trabalhando com o empenho de toda a família em nome da melhor nutrição das crianças e desconexão com os celulares. E explica que tem uma máxima que costuma dizer aos pais.

Seu filho não precisa comer tudo, ele precisa de você, isso vai proporcionar uma conexão entre a família, uma refeição com harmonia, uma refeição leve, e tudo vai fluir

Tempo recomendado e dicas

Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) já identificou a exposição constante das crianças ao celular como uma ameaça à saúde infanto-juvenil e vêm divulgando orientações quanto ao uso. São elas:

  • Crianças com menos de 2 anos não devem ser expostas às telas digitais, principalmente, durante as refeições ou de 1 a 2 horas antes de dormir;
  • Entre 2 e 5 anos de idade, o uso deve ser limitado a, no máximo, 1 hora por dia;
  • Crianças maiores de 5 anos só devem assistir celulares, tablets ou televisão por, no máximo, 2 horas por dia.

“Estacionamento de celular”

Para um controle familiar, Maia dá dicas de estratégias como o “estacionamento de celular”.  Ela explica que “é como se fosse um estacionamento de carro, feito de caixa de papelão, por exemplo, onde todo mundo coloca o seu celular e aí você tem um momento de entrega com os filhos, de conversa, de situação de vida real”.

Ela também incentiva os pais a programarem para os pequenos brinquedos adequados para a faixa etária, lazer com outras crianças, passeios diferenciados. E até investir no ócio.

“Quando a criança reclama muito de tédio não, necessariamente, precisa ter o desejo de fazer algo atendido porque o tédio é a base da criatividade. Quando não está fazendo nada, está imaginando o que pode fazer pra lidar com aquele tempo e isso é fundamental, também, na vida das crianças”, afirma a psicóloga.

Quando procurar um especialista

Nos casos mais graves, em que a criança já apresenta sintomas de ansiedade, depressão, prejuízos sociais ou educacionais, é preciso procurar ajuda de um especialista, psicólogo ou psiquiatra. De acordo com Tamara Maia “essas questões precisam ser trabalhadas, normalmente, com psicoterapia, com orientação de pais e em alguns casos, também, com a intervenção medicamentosa”.

Diário do Nordeste

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