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Duas senhoras de certa idade, a crônica de Angela Barros Leal

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“O vento soprava a chuva em riscos quase horizontais, dourados pelos faróis dos carros, e revirava pelo avesso os quase inúteis guarda-chuvas. Duas senhoras de certa classe, de certa idade, ensopadas, encharcadas, amparadas uma na outra, despencando de rir”.

A chuva desabou de um minuto para outro, justo na hora em que saíamos do carro. Previdentes, cada uma abrindo seu guarda-chuva, meio que corremos, meio que arrastamos os pés, evitando os buracos na calçada estreita da rua dos Tabajaras, Praia de Iracema. Deus nos livre de uma queda ali, naquela hora!

Não havia como evitar o banho. O vento soprava a chuva em riscos quase horizontais, dourados pelos faróis dos carros, e revirava pelo avesso os quase inúteis guarda-chuvas. Duas senhoras de certa classe, de certa idade, ensopadas, encharcadas, amparadas uma na outra, despencando de rir.

Entramos pelo primeiro portão aberto, um misto de bar e café com paredes coloridas. Nossas sandálias de salto alto esguichavam água a cada passo, encabuladas diante das sandálias rasteiras, alternativas, dos jovens ocupantes do local.

Um café bem quente, servido em copos americanos, demandamos à atendente, e um pacote de guardanapos para tentar secar o rosto, os braços, os cabelos – o meu curto, o dela a mesma juba loura mantida desde a adolescência.

Adoro guardanapos, minha amiga revela, passando a mão sobre o pacote de crochê onde estão guardadas as pequenas folhas de papel, e rimos mais um pouco dessa estranha predileção. Ela senta de costas para a rua e perde o espetáculo que assisto, das ondas explodindo contra uma mureta de pedra, a espuma do mar salgando as águas da chuva. Não faço questão de ver, ela dá de ombros. Já vi, já fiz, já fui.

Já fomos, na verdade. Estamos, ambas, cientes da carne flácida de nossos braços, de nossas mãos assemelhadas a troncos de árvore, rendadas de veias em alto-relevo, das tristezas e alegrias inscritas nos nossos rostos, da gravidade agindo sobre nossos corpos, dos riscos que corremos para chegar até o dia de hoje – especialmente até ali, àquele café ou bar sem a mínima relação conosco: duas senhoras sustentando as bolsas na curva do cotovelo, o Inverno empoçando no chão em nossa volta.

Conversamos coisas simples, reservando um tempo indispensável para as queixas médicas. A dor no pescoço, a distensão no joelho. A fisgada na base da coluna, que não passa. A intermitência de uma contorção na base do estômago. As falhas da visão. Tudo o que não se escuta, e aquilo que se escuta até demais. Permutamos nomes de médicos, partilhamos receitas.

Conversamos sobre filhos e netos e sonhos e desesperanças, sobre os golpes sofridos e sobre coisas que não vou contar, pois existem os sentimentos alheios, e ainda existem a compostura e o decoro tatuados em nós, a ferro e fogo, pelas freiras dos colégios.

Gotas de chuva reluzem no cabelo dela. Algumas também cintilam em meu pulso. Ostentamos uma sororidade iluminada, indiferente aos olhares disparados dos rostos jovens à nossa volta, para quem somos alienígenas, extraterrenas, representantes de um planeta longínquo em uma galáxia muito, muito distante, chamada Velhice.

Nunca aceitaremos isso, leio nos balõezinhos imaginários suspensos sobre as cabeças inocentes, escritos com a mesma letra complacente na qual, um dia, nós também escrevemos que nunca aceitaríamos, que resistiríamos bravamente ao assédio do Tempo. E olha só no que deu.

Há séculos não nos víamos, embora morando na mesma cidade e mantendo contato eventual via WhatsApp. Baixamos as vozes para discutir assuntos particulares. Para falar mal de alguém de sobrenome importante. Levamos as mãos à boca, em susto, quando tomamos conhecimento de quem morreu. Atualizamos nossos bancos de dados quanto a quem escapou de quê, quem se mantém vivo, e a que duras penas.

Devoro um bolo de chocolate com castanha, dotado de incontáveis calorias: me concedo certos prazeres. Ela se delicia com uma brusqueta, ou bruschetta, como anuncia o cardápio, igualmente despreocupada. O que temos a contar, pesar e medir não está escrito nas frases que enfeitam as paredes, nem nas tabelas de nutricionistas e endocrinologistas.

Ela me conta histórias engraçadas, que arrancam lágrimas dos meus olhos. E outras tão tristes, obtendo igual efeito. Juro que não vou contar nenhuma delas a ninguém, prometo, dedos em cruz, sem me preocupar com o que a senilidade, que nos espreita, vai ser capaz de nos levar um dia a dizer.

Daqui a dez anos continuaremos a nos encontrar, estamos seguras disso, só que certamente em número de quatro: nós duas, e as duas cuidadoras a essas alturas a nosso serviço. Por enquanto, estamos ao abrigo da chuva, temos 13 anos de idade, e abrimos a boca para rir da vida enquanto a morte não nos mostra os dentes.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus.jor.
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