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Especial Dia das Mães: Famosas contam como criam seus filhos para os novos tempos

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Por Rafael Godinho e Raquel Pinheiro

Expectativa: quatro mães, cinco crianças e a ideia de mostrar como famosas estão criando seus filhos para um mundo em constante mudança. Realidade: uma bagunça deliciosa e depoimentos mais que emocionantes sobre a maternidade, comprovando que, com amor e respeito dá, sim, para enfrentar os percalços da vida moderna educando crianças conscientes e tolerantes com o próximo – mesmo quando o futuro às vezes não parece dos melhores. Reunimos em um estúdio no Rio a cantora Aline Wirley com Antonio; a atriz Danni Suzuki com Kauai; a apresentadora Kyra Gracie com Ayra e Kyara; e a ativista Luisa Mell com Enzo. Os pequenos logo se enturmaram fazendo uma farra, deixando a equipe inteira com vontade de levar para casa a garotada. As mães entraram na mesma sintonia fina e, em minutos, a capa de QUEM virou uma grande celebração, antecipando o Dia das Mães.

Aline Wirley cria o pequeno Antonio, de 3 anos, em um mundo onde foi vítima de racismo quando ela e o marido, o ator Igor Rickli, assumiram o romance, quase uma década atrás. “Ainda não sentimos nenhum preconceito direcionado a Antonio. Como que ele vai se sentir e se posicionar quando começarem a questionar se ele é branco, negro ou colorido, é difícil saber. Nesse momento, ele é só um bebezinho”, diz a cantora do Rouge, que acredita que o filho vai ensinar a mãe. “Eu quero muito aprender com ele porque ele é uma mistura de nós dois. Eu acho que ele vai nos trazer muitas respostas, também”, diz ela, que no dia das fotos encontrou o filhote após nove dias sem vê-lo devido a compromissos de trabalho e não segurou as lágrimas.

Danni Suzuki preparou o filho, Kauai, fruto do seu relacionamento com Fábio Novaes, para o mundo. Aos 7 anos, o menino tem o passaporte mais carimbado do que o de muitos adultos. “O Kauai viaja muito, desde novinho. Ele já foi para muitos lugares diferentes. Ele já fala inglês fluente e escreve algumas palavras”, gaba-se a mãe orgulhosa. Até o paladar da criança é multicultural. “Como ele sempre viajou desde muito bebê, ele teve que se adaptar com a comida de qualquer lugar que a gente tivesse. Ele come japonês, tailandês, literalmente de tudo. Ele adora verduras e legumes. Só leite que eu dou sem lactose para ele. Refrigerante e suco de caixinha ele também não toma”, revela Danni.

Mãe de duas meninas, Kyra, pentacampeã mundial de jiu-jítsu, um esporte tradicionalmente masculino, sabe como o mundo pode ser machista com as mulheres e, ainda mais, com as que não seguem os “padrões”. “Sofri muito preconceito. Com 12 anos, começando as festinhas da escola, eu era bem excluída. Minhas amigas falavam: ‘Kyra, por quê que você luta isso? Você nunca vai arranjar um namorado!’”, lembra a mulher do ator Malvino Salvador. Determinada, ela tem uma meta com as garotinhas. “Como mãe, vou trabalhar para deixar minhas filhas seguras, confiantes e preparadas para a vida”, afirma.

Em 2013, muito antes do tema virar “moda”, Luisa Mell adotou o veganismo para a vida. E, quando nasceu Enzo, resolveu que o menino também seria vegano – sua alimentação exclui todo e qualquer produto de origem animal, inclusive derivados do leite e ovos. Na internet, já tomou muita paulada por criar o menino de 3 anos seguindo os príncípios do veganismo. Apesar disso, garante que viver dentro dos preceitos do movimento nem de longe é o mais difícil da maternidade. “Cada fase tem um desafio. Sempre brinco que você vê aquela criança se jogando no chão do shopping e quando você não é mãe você olha e julga. Já quando você é mãe… hoje em dia eu vejo e tenho vontade de falar: ‘quer ajuda?'”, diz.

Aline Wirley (Foto:  )
Aline Wirley com o filho, Antônio (Foto: Anna Fischer)

Aline Wirley sofreu muita discriminação racial quando começou a namorar o galã Igor Rickli, há quase uma década. Aos 36 anos, mãe do extrovertido Antonio, de 3, a cantora diz que o racismo ainda não atingiu o filho diretamente e sonha com uma evolução da sociedade. “O preconceito é uma coisa que a humanidade criou, para uma criança ele não existe. Ele não entende. E dentro da minha casa como é que vai ter? O pai dele é loiro e tem olhos claros e eu sou uma mulher negra. Eu tenho esperança de que nossos filhos criem uma sociedade melhor, sem preconceito, com mais amor e respeito”, acredita.

De origem humilde, Aline teve a sua realidade transformada pela arte. A artista saiu de Cachoeira Paulista ainda na adolescência para estudar Artes Cênicas em Taubaté, mas ao atingir a maioridade que sua vida mudou, quando ela participou do programa Popstar e formou a banda Rouge, em 2002. Mais de 15 anos depois, ela vê a sua veia artística pulsar no filho. “Ele é extremamente afinado. Desde pequeno, ele já atinge as notinhas no piano. Eu quero é que ele seja muito feliz independente de qualquer coisa”, deseja.

Orgulhosa, a mãe conta que Antonio, chamado carinhosamente de Caramelo pelos pais, já soma uma legião de fãs nas redes sociais. Apesar da exposição do menino na web, Aline impõe limites na exibição do filho. “Eu e o Igor somos pessoas públicas, nós gostamos muito do que fazemos e respeitamos nossos fãs. Por isso que a gente compartilha um pouco da nossa rotina com eles, desde que não invada o nosso espaço, principalmente o do Antonio. Tem gente que fala para eu criar um canal no Youtube ou um perfil no Instagram para ele, mas por enquanto acho que não é a hora, porque ele ainda está sob os nossos olhos”, pondera.

Para Aline, o maior desafio da maternidade é educar o filho de forma que ele se proteja das mazelas do mundo e ao mesmo tempo contribua para a melhora dele. “Cabe a nós nos tornarmos pais com muita consciência na educação dos nossos filhos. Eu espero que daqui a uns 20 anos, nossos filhos escrevam uma história de um mundo com mais amor. Tanto eu quanto o Igor temos uma filosofia de educação com o Antonio de que ele saiba respeitar a diferença de cada um. Às vezes, a gente fica meio sem rumo e cansado com tanta notícia ruim que a gente vê diariamente, mas não podemos desistir”, exclama ela, que não pensa em ter mais filhos atualmente. “Neste momento, não. Eu acho que na fase atual do mundo, eu preciso regar bem essa plantinha para daqui a pouco quem sabe pensar em ter outro”, explica.

Aline Wirley com o filho, Antônio (Foto: Anna Fischer)

A cantora teve sua realidade transformada após dar à luz. “A maternidade é a maior bênção da minha vida e o meu maior desafio também. Existe a Aline antes e depois de ser mãe. Eu me questiono muito mais agora, porque eu quero ser a melhor mãe que eu puder para o Antonio. Isso significa ser uma pessoa melhor para mim. Eu me enxergo diferente como mulher. Eu fiz uma reforma muito íntima, com questões que eu achava bobas, mas que com a chegada dele, eu tive que mexer e remexer. A maternidade faz a gente ver a vida de outra maneira, faz tudo valer a pena. Nós conhecemos outra definição do que é o amor”, declara.

Aline diz que as mudanças na mulher acontecem naturalmente com a chegada do filho. “É um desafio muito grande receber um ser que é totalmente dependente de você. Vai desde as coisas básicas, de pensar como você vai sustentar uma criança, de comprar fraldas, pagar escola; até a forma que você vai educar. Qual o melhor jeito? Não tem um manual! Várias vezes você pensa: ‘Ninguém me avisou que era assim’. Mesmo você lendo, relendo, conversando com mães, só quando o filho chega que você vai aprendendo na prática. Todo dia é um dia novo. É a maior responsabilidade da vida e o maior amor do mundo. A gente se supera tanto. A gente fica tão forte”, garante.

Com o tempo, a cantora aprendeu a se cobrar menos. “Eu não posso achar que eu vou resolver todas as questões dele. Eu aprendi isso naturalmente. Eu sou o tipo de mulher que respeita muito os meus sentimentos, as minhas questões e tive que lidar com elas muito cedo e eu me sinto muito abençoada. Eu nunca deixei nada passar. Sempre que eu tenho oportunidade de ir a fundo nas minhas questões, eu vou e as resolvo”, afirma.

A artista passou a enxergar a mãe com outros olhos e as duas se aproximaram ainda mais com o nascimento do neto. “Foi muito legal que eu resgatei e curei muitas coisas com a minha mãe com a chegada do Antonio. Eu a compreendo melhor hoje em dia. Eu consegui ver o outro lado. A maternidade e a culpa são duas coisas que andam muito juntas e eu consegui não julgar a minha mãe por nada. Só vi amor. Eu entendi que ela fez o máximo que podia. Assim como eu faço o máximo que eu posso e mesmo assim ainda falta alguma coisa, porque ele é um indivíduo. Hoje em dia, eu e minha mãe somos duas mulheres. Sempre que pode a gente conversa sobre as questões da vida e isso é muito bom”, comemora.

O retorno da Rouge em 2017 fez com que Aline deixasse Antonio com o pai para ela sair em turnê com a banda. “Quando começou a história da volta, que eu fiquei quase um mês em São Paulo ensaiando, eu estranhei bastante. Eu pensei: ‘Meu Deus, estou abandonando o meu filho’. Me deu um sentimento de culpa. Mas quando eu voltei e vi que ele estava bem, eu fiquei mais tranquila. Eu percebi que ele sente que a mãe dele é feliz fazendo o que ela gosta. É difícil conciliar o papel de mãe com a carreira, mas eu preciso elogiar o meu marido, porque o Igor é demais! Ele cuida muito bem do Antonio. Nós nos apoiamos muito e respeitamos o momento de cada um. Meu marido me incentiva muito e me deixa tranquila para seguir em frente. Isso faz com que eu consiga ser mãe, ser mulher, ser profissional e sem abrir mão de ser feliz”, conclui.

Danni Suzuki (Foto:  )
Danni Suzuki com o filho, Kauai (Foto: Anna Fischer)

Desapegada das coisas materiais, Danni Suzuki cria o filho, Kauai, conectado aos elementos da natureza. “Ele só anda descalço, gosta de ir à praia, andar no jardim, procurar insetos. Desde muito pequeno, ele tem essa conexão. Ele surfa, faz ioga e medita também. Eu e o pai dele tentamos conectar ele a tudo que tenha esse espírito de natureza. No fim de semana, ele vai com o Fábio para a cachoeira e faz trilha. Ele já tem essa intimidade com a natureza. Não sou só eu que incentivo. O pai dele também incentiva muito”, elogia.

Outro fundamento na base educacional de Danni como mãe é deixar o herdeiro preparado para vivenciar culturas diferentes. “O Kauai viaja muito, desde novinho. Ele já foi para muitos lugares diferentes. Ele já fala inglês fluente e escreve algumas palavras. Como ele sempre viajou desde muito bebê, ele teve que se adaptar com a comida de qualquer lugar que a gente tivesse. Ele come japonês, tailandês, literalmente de tudo. Ele adora verduras e legumes. Só leite que eu dou sem lactose para ele. Refrigerante e suco de caixinha ele também não toma”, lista.

Prestes a se mudar para os Estados Unidos, a atriz diz que mãe e filho estão acostumados a vida americana. “Eu penso em morar definitivamente nos Estados Unidos porque eu já comecei a tirar a documentação. Ele também já quer morar lá. Ele se identifica mais com a cultura de lá do que daqui. Eu sinto que a minha base não importa muito aonde é. Porque sendo lá ou aqui, estou sempre indo e vindo. Tem anos, que mesmo eu tendo base aqui, estou mais lá do que aqui. Acho que não importa o país que a gente esteja, a nossa casa é dentro da gente”, acredita.

Um dos motivos que a levaram a querer criar o menino no exterior é a violência e atual situação política e econômica no Brasil. “Eu tenho esperança de que um dia tudo vai mudar, mas não acho que é agora. Tudo isso que estamos passando vai causar uma mudança positiva lá na frente. Eu acredito nas pessoas de luz, no amor. É importante existir uma conscientização de tudo que está acontecendo. As pessoas têm que ficar atentas a elas mesmas. Porque, muitas vezes, a gente fica querendo que o outro mude e não fazemos a nossa parte”, diz.

Preocupada com o meio ambiente, a artista pretende manter a conscientização ambiental do filho no país considerado um dos maiores poluidores do planeta. “Acho que cada um pode fazer a sua parte. A gente separa até o lixo de casa. Nós moramos em um condomínio que faz a coleta seletiva e ele já sabe identificar os lixos nas lixeiras certas. Ele já toma cuidado com a água quando toma banho. Isso tudo, ele mesmo já faz. Quando eu escovo o dente e deixo a torneira ligada ele fala: ‘Está acabando com a água do planeta, mamãe’. É uma consciência que está nele já”, afirma.

Danni Suzuki com o filho, Kauai (Foto: Anna Fischer)

Para Danni, criar um filho exige enfrentar um novo desafio a cada dia. “Acho que por mais que você eduque e tente colocar os valores do que é bom para um filho, ele tem a personalidade dele e ele não vai ser como você foi quando criança, nem igual ao filho da sua amiga. Ele tem o tempo certo dele de aprender. Ele precisa do tempo dele sozinho brincando, para que ele se desenvolva. Eu crio o Kauai muito independente. Quando ele cai, ele levanta sozinho e não faz escândalo. Acho que cada fase a gente vai descobrindo um novo desafio. Agora estou descobrindo como deixar ele de castigo”, revela.

A atriz tem consciência da sua responsabilidade em criar um ser humano disposto a viver em harmonia na sociedade. “Tenho muito cuidado para que ele não seja preconceituoso. Principalmente para ele não praticar bullying na escola. Eu converso com o Kauai e falo para ele tratar as pessoas da mesma maneira que ele gostaria de ser tratado. Eu digo pra ele chamar os amiguinhos pelo nome e não destacando as características negativas”, explica. Para ela, o diálogo é muito importante na relação entre mãe e filho. “Eu tento sempre dialogar e deixar ele se abrir comigo. É fundamental para o desenvolvimento de um filho ele poder confiar na mãe e no pai”, destaca.

Danni tenta dar bons exemplos dentro de casa para que o filho siga. “Eu acho que as crianças nascem completamente tolerantes. Elas nascem abertas para amar. Definitivamente, a criança é um reflexo do que os pais fazem e não o que eles dizem. Não adianta eu impor uma educação, se eu não pratico o que ensino. Às vezes, a gente ensina e não tem o hábito de fazer. E eles próprios começam a seguir as regras e você não. Aí ele me corrige”, conta.

A atriz diz aprender muito com o filho também. “Ele me surpreendeu no aniversário dele e disse que não queria presente este ano, só queria amor. E eu perguntei o que ele ia fazer com os presentes que ganhasse. Ele disse que já tinha tudo e que iria separar para doar às crianças pobres, porque ele já me viu fazendo campanha e me acompanhou em trabalhos voluntários. Ele já foi comigo para o Jardim Gramacho e me ajudou. Ele mesmo entregava os brinquedos e explicava como eles funcionavam para as crianças”, lembra.

A transformação que Kauai causou em Danni começou a partir do momento em que ela descobriu que estava grávida. “Eu mudei totalmente. Foi uma mudança radical. Eu comecei a olhar a vida de outra forma e principalmente comecei a guardar dinheiro. Também comecei a entender melhor meus pais. Resolvi buscar saber como foi a infância deles, como que foi a vida que eles viveram, para entender melhor esse processo. Ser mãe é uma responsabilidade enorme e eu entendi que seria o maior projeto da minha vida. Ser mãe é um aprendizado contínuo”, finaliza.

Kyra Gracie (Foto:  )
Kyra Gracie com as filhas, Kyara e Ayra (Foto: Anna Fischer)

Kyra Gracie cresceu na família que apresentou o jiu-jítsu para o mundo. Adepta do esporte desde pequena, muitas vezes era a única mulher dentro das academias por onde passou e se sentiu desmotivada pelo preconceito. Mas a apresentadora de 32 anos enfrentou as barreiras, virou faixa preta e foi pentacampeã mundial de jiu-jítsu. Casada com o ator Malvino Salvador, ela acredita que o futuro será mais justo com Ayra, de 3, e Kyara, de 1 ano e 8 meses. “Minhas filhas vão viver em um mundo melhor para as mulheres”, afirma com convicção.

As duas já fazem jiu-jítsu com a mãe em casa, em clima de brincadeira. “Elas vão crescer no tatame. Mas mais importante do que competir e virar faixa preta é que elas absorvam os valores do esporte: aprendem a dividir, a trabalhar em equipe, uma ajudar a outra”, ressalta Kyra. “O jiu-jítsu é baseado em valores e encarar os desafios da vida. A gente aprende o respeito e que todo mundo é igual. No momento que se entra no tatame, não existe diferença de raça ou social. Todo mundo veste o mesmo uniforme. Isso foi fundamental para a minha criação”, conta ela, que credita ao esporte a disciplina.

“Passei a infância e adolescência competindo. Enquanto minhas amigas estavam saindo para festas, bebendo, eu fazia dieta, viajava, competia. Eu tinha que focar, mesmo sem saber se chegaria a algum lugar”, lembra. “Todos os sacrifícios e dificuldades que eu passei foram fundamentais para o que eu sou e a minha vida hoje”, garante.

Para chegar aos títulos e às medalhas, Kyra lutou dentro e fora dos tatames. “Sofri muito preconceito. Com 12 anos, começando as festinhas da escola, eu era bem excluída. Minhas amigas falavam: ‘Kyra, por que que você luta isso? Você nunca vai arranjar um namorado!’”, relembra. Ser chamada de “mulher macho” e ouvir que “ia virar sapatão” também era comum. Aos 14 anos, avisou que queria se tornar faixa preta e viver da luta e ouviu de parentes para tentar outra coisa. “Hoje a maior moda entre as mulheres é luta. As amigas me encontram e dizem: ‘Meu Deus do céu, a gente falava aquilo para você’”, diz.

Apesar dos avanços, Kyra sabe que as dificuldades continuam. “A violência me deixa preocupada”, confessa. “Como mãe, vou trabalhar para deixar minhas filhas seguras, confiantes e preparadas para a vida. A preocupação não pode te impedir de agir”, pondera. “É muito importante o exemplo e valores que são passados. Ayra e Kyara também vão aprender muito isso no jiu-jítsu porque elas são minhas alunas. E a atitude verbal também de dizer: ‘Não chega perto de mim. Não me encosta’. São com essas pequenas atitudes que elas vão criando a consciência e vão ser mulheres autoconfiantes”, acredita.

Kyra Gracie com as filhas, Kyara e Ayra (Foto: Anna Fischer)

Desde os 19 anos, Kyra dá aulas para turmas infantis – o lado maternal já estava presente. “Eu sempre gostei muito de criança. Eu já imaginava ser mãe e sonhava com tudo isso”, conta. Quando se casou com Malvino, ele já tinha uma filhinha, Sofia, hoje com 8 anos e que mora em Brasília. “É mais fácil quando você tem uma enteada novinha para se acostumar”, diz Kyra, que teve três gestações seguidas – depois de Kyara e Ayra, ela teve uma gravidez interrompida em 2017. “Eu tinha colocado o DIU e veio a gravidez. Tive que fazer uma cirurgia de emergência e foi bem tenso. Tive uma dor muito forte. Não consegui ir para o trabalho e fui direto para o médico, que me mandou para a sala de cirurgia”, lembra ela, que pretende engravidar novamente.

Em uma casa de quatro mulheres, mais babá e cozinheira, Kyra conta, rindo, que Malvino, de 42, “gosta porque a gente mima bastante ele aqui dentro”. Em comum os dois têm a paixão por lutas e o perfil mais caseiro.  “Aqui em casa nós temos um tatame, um saco de boxe. Às vezes, Malvino chega do trabalho tarde e coloca a luva e vai para o saco de boxe”, diz.

A mãe preferiu deixar a filhas com menos obrigações. “Quero elas tenham um tempo livre também para brincar”, afirma a apresentadora, que só permite que as meninas assistam desenhos e programas para sua idade. A alimentação regrada também é prioridade. “Tudo que a gente faz não tem glúten, nem leite. Aqui não tem bolo, não tem biscoito, não tem doce e nada disso. Em festas, deixo Ayra comer um pedaço de bolo, porque ela vê os amiguinhos comendo. Mas não pode virar uma rotina”, ensina Kyra, que usa um quadro de estrelinhas para incentivar as boas escolhas. “Quanto mais fruta e verdura ela comer, mais estrelas ela ganha e aí pode ver mais desenhos. Tem dado certo”, diz.

Luisa Mell (Foto:  )
Luisa Mell, com o filho, Enzo (Foto: Anna Fischer)

No mundo ideal de Luisa Mell, os animais não vão à mesa e não são comercializados. Bichos não são forma de entretenimento e nem têm seus direitos desrespeitados. Coerente com esses princípios que adotou para a vida, ela abraçou o veganismo, abolindo peças de couro e pele do armário e adotando uma dieta livre de alimentos de origem animal. É essa mesma visão da vida que a ativista de 39 anos imprime na criação do único filho, Enzo, de 3. “Eu sempre falo que a maternidade vegana é fé. Resistência é a palavra, porque é o tempo inteiro o mundo te falando ‘ah, isso é bobagem, que absurdo como ele vai crescer’. É provar ali na prática que é possível, sim, o mundo que você acredita”, afirma.

Luisa adiou o sonho de ser mãe esperando o momento e a pessoa certos, no caso o marido, o empresário Gilberto Zabarowsky, de 56. Quando engravidou, era vegana há um ano. Mas se alimentava mal. “Eu não comia direito, é uma ilusão achar que todo vegano come bem. Gestante, tinha responsabilidade com outra pessoa e procurei uma nutricionista e um médico. Aí aprendi a comer”, lembra.

Famosa, grávida e vegana: choveram críticas à Luisa. As mais leves diziam que ela era maluca; as mais pesadas questionavam se conseguiria gerar um filho saudável. “Eu estudei muito, vi que era possível. Enzo nasceu de 40 semanas e quando o pediatra fez o primeiro exame e falou ‘nossa, esse é um dos bebês mais fortes que já vi em toda minha carreira’… Qualquer mãe ficaria feliz com isso, mas para mim foi uma grande vitória de vida”, conta, muito emocionada.

Os primeiros meses após a chegada de Enzo não foram fáceis. “Tive um pouco de depressão pós-parto, e ele foi um bebê que chorou o primeiro mês sem parar, fui até parar no hospital de tanto que ele chorava”, diz Luisa, que pulou a fase da papinha direto para a comida. “Fiz como meu médico me indicou e foi maravilhoso. Ele nunca engasgou, sempre comeu todas as verduras e os legumes. Bebê você controla fácil, mas conforme foi crescendo, começaram os desafios”, diz.

Encontrar escola para Enzo não foi fácil. “Achava que o problema seria só o lanche. Já tinha feito matrícula quando soube que o local tinha pássaros na gaiola e um jabuti. Então o que seria o primeiro dia de aula do Enzo foi o primeiro resgate dele: a gente levou o jabuti para um lugar apropriado”, conta Luisa, que só então percebeu o tamanho de seu desafio. “Entendi que era muito mais que a alimentação, que era um conceito de vida mesmo”, afirma Luisa, que teve o apoio do marido.

Hoje a comida de Enzo é à base frutas, legumes, verduras, arroz, feijão, castanhas e sem qualquer produto de origem animal, inclusive derivados do leite e ovo. Para a casa de amiguinhos ou festinhas, leva lanche e docinhos, como brigadeiros veganos. “Às vezes, ele me pede para comer carne, mas acredito que é para me provocar porque está na fase de testar limites. Enzo ainda não entende que a carne é vaca, enquanto sabe que o peixe é peixe”, diz ela, que reforça no menino a tolerância às diferenças. “Outro dia ele me disse ‘não amo ninguém que não é vegano’. Expliquei que não é assim, que a gente tem que orientar e amar as pessoas. É um desafio ensinar esses conceitos”, confessa.

O nascimento de Enzo cimentou as convicções ambientalistas de Luisa. “Penso que não vai dar tempo de nada porque o mundo vai entrar em colapso. Mas essa geração já vem com outro olhar”, avisa ela, que a criação do filho enfrenta outros desafios comuns às mães de meninos. “Tenho que ensinar meu filho a não ser machista, porque são as mães também que criam os meninos. Fico o tempo inteiro me policiando porque isso é meio que construído pela sociedade, vem com a gente”, assume. “Já arranjei briga quando falaram ‘ah, ele vai ser o terror (das meninas)’”, conta.

Luisa Mell, com o filho, Enzo (Foto: Anna Fischer)

Apesar de tudo, ela sente que o mundo passa por mudanças. “Há 15 anos todo mundo sabia que existia assédio e era ‘é assim, ponto’. E agora isso mudou e mudou muito”, analisa Luisa, que diz que a maternidade não é necessariamente mais complicada por sua opção pelo veganismo. “A maternidade é sempre difícil, cada idade é uma. Quando você acha que entendeu, muda tudo”, ensina.

Enzo é apaixonado por insetos e chegou ao estúdio onde foram feitas as fotos dessa matéria com besouros, aranhas e escorpiões de plástico. “Quando era menorzinho, ele viu um inseto em uma piscina e falou ‘vamos salvar’. Ele tem respeito com a natureza”, conta. Enzo, que já fez alguns parentes e uma babá adotarem o veganismo, visita com frequência o abrigo de animais mantido pela mãe e sente um pouco de ciúme do assédio a ela nas feiras de adoção. “Mas ele sabe que sou a Luisa Mell e meu trabalho salva os animais”, explica ela.

Como muitas mães, Luisa está sempre correndo para dar conta de tudo. “Mas ele é prioridade. Não abro mão de colocar Enzo para dormir pelo menos seis vezes por semana. Meu objetivo é estar presente”, conta. Realizada com um único filho – Enzo tem cinco irmãos por parte de pai, inclusive uma sobrinha da mesma idade, e priminhos –, Luisa não tem planos de aumentar a família. “Um dia perguntei ‘Enzo, você quer um irmãozinho? E ele falou ‘não, melhor adotar mais um cachorro. Pensando bem, mais um gato também”, diverte-se.

Fotos: Anna Fischer
Assistente de fotografia: Rogério
Vídeo: Ana Carolina Moura (roteiro), Daniel Sandes (captação de imagens) e Eduardo Garcia (edição)
Design de capa: Andressa Xavier
Make e hair: Maurício Nazário e Rafael Nsar
Stylist: Herbert Correia
Agradecimentos: Colcci, Fábula e Hering

Aline Wirley, Luisa Mell, Danni Suzuki e Kyra Gracie com seus filhos (Foto: Anna Fischer)

Capa

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Felipe Pezzoni e a reinvenção da Banda Eva: “sofri julgamentos, mas foi desafiador”

Juliana Didone: “Maternidade não é unicórnio e fadinha, é rock and roll”

Aline Wirley

Kyra Gracie

Luisa Mell

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