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Hospitais de Fortaleza têm atraso de medicamentos para transplantados: ‘meu neto tomou remédio de uma garota que faleceu’

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Medicamentos essenciais para sobrevida de pacientes que passaram por transplante de órgãos estão com abastecimento instável em pelo menos dois hospitais de Fortaleza: Hospital Geral de Fortaleza (HGF) e Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC). As fórmulas Everolimo, Tacrolimo e Sirolimo são de uso diário obrigatório – e o repasse federal, conforme a Secretaria Estadual da Saúde (Sesa), sofreu atraso de três meses.

O órgão estadual informou que “a programação e distribuição de medicamentos do MS [Ministério da Saúde] para os estados ocorre a cada três meses”, mas o prazo não foi cumprido, neste ano. Para o segundo trimestre, o Ceará programou 109 itens, dos quais oito são imunossupressores – itens que chegaram pela metade.

“Foram programados 146.280 comprimidos do Everolimo 1 mg, cuja entrega estava prevista para até 31 de março, para abastecimento de abril, maio e junho. Recebemos 73.140 comprimidos (50%) do MS, na última segunda-feira (3). Sobre o Sirolimo 1mg, foram programados 30.900 comprimidos – no dia 3, recebemos 24 mil (77%)”.

Em nota ao G1, o Ministério da Saúde não justificou o atraso, afirmando apenas que “concluiu todos os processos de licitação para compra de medicamentos”, que “estão sendo enviados, ao longo deste mês, para as secretarias estaduais”.

Prejuízos

Convivendo com os cuidados com a saúde do neto desde que ele nasceu, a dona de casa Xênia Mota, 65, precisou “se virar” por três meses, no início deste ano, para não deixar Yago Melo, 14, sem as duas doses diárias do imunossupressor.

Diagnosticado no primeiro ano de vida com cistinose – doença genética rara que gera a falência dos rins –, o garoto realizou um transplante renal em 2017 e passou a depender do medicamento para evitar rejeição do órgão e sobreviver.

“Ele começou a receber a medicação antes mesmo do transplante, e até já houve falta, mas não tão grosseiramente como agora. Nesses três meses, ele tomou de uma garota que faleceu pela mesma doença rara dele, ela era transplantada, pegou catapora e não resistiu; e a mãe dela, em vez de devolver pro hospital, me deu. E disso o meu neto veio vivendo”, relembra Xênia, cuja espera terminou na última terça-feira (4), quando recebeu a dose mensal no HGF.

Um dia sem tomar o medicamento é suficiente para alterar o quadro e prejudicar o desempenho do organismo, como explica o chefe do serviço de transplantes de fígado do Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC), José Huygens Garcia. “É essencial, não pode faltar nem um dia, sob risco de perder o órgão. Depois de um mês sem o imunossupressor, é muito difícil recuperar.”

O HUWC confirmou que “dos nove tipos de imunossupressores dispensados, três estavam em falta” e que a distribuição foi regularizada terça-feira (4). O hospital reforçou, ainda, a dependência em relação ao Ministério da Saúde (MS) e à Sesa para abastecer a farmácia ambulatorial.

Abastecimento

Dr. Huygens avalia os prejuízos da escassez do fármaco e reconhece a formação de uma rede de colaboração entre os pacientes. “Houve muita dificuldade de abastecimento, gerando um movimento em que quem tinha mais cedia ao outro, para de alguma forma substituir. Mas isso é um caos. O transplante é um procedimento que envolve muitos custos, e o maior deles é a doação. Um órgão é um bem raro, de valor inestimável, inclusive para as famílias que doam”, avalia o médico.

A chegada de nova remessa dos imunossupressores, na terça-feira, é vista com alívio pelo médico do HUWC, mas não anula a tensão pela instabilidade nos repasses. “A previsão de chegada era até maio, e chegaram agora. Nós estamos muito preocupados. Porque se a pessoa tiver rejeição crônica por falta de medicação, perde o órgão. Se for rim, volta pra hemodiálise ou pra fila de transplante. Se for fígado, precisa de outro ou falece.”

O temor pela vida do esposo, aliás, tem tomado dias e noites da dona de casa Gerlane Melo, 39. Giuliano Menezes é transplantado renal há oito anos e toma o Everolimo desde o procedimento – rotina interrompida há um mês, quando o fármaco faltou no HUWC pela primeira vez, impedindo o vigilante de acessar o tratamento. “É um medicamento pra sobreviver, e ele já está se queixando de dor. Nosso medo é entrar na máquina (hemodiálise) de novo ou ele poder chegar a óbito. Não queremos passar esse sofrimento”, desabafa Gerlane.

Outro problema apontado por ela é a dependência total em relação ao estado e ao Ministério da Saúde, já que o imunossupressor não é comercializado.

“Se tivesse pra vender, a gente pediria cartão de crédito emprestado, dinheiro, qualquer coisa”, afirma a dona de casa, endossada por Dr. Huygens.

“É uma medicação de custo significativo, e o paciente não pode nem fazer o esforço de comprar. O Everolimo chegou a faltar mesmo, precisamos substituir de forma precária. O Tacrolimo, que é o mais importante e usado, chega de forma insuficiente, às vezes só de 1mg, e não de 5mg”, relata o médico sobre a realidade do HUWC.

Por Theyse Viana, G1 CE

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