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Idosos que passavam dificuldades são acolhidos em ‘república’ da terceira idade em Ribeirão Preto

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Com sorriso no rosto e uma vassoura na mãos, a aposentada Márcia Gouveia costuma limpar diariamente a portaria da Vila Dignidade, no bairro Jardim Botânico, zona Sul de Ribeirão Preto (SP). Aos 69 anos, ela é uma das 17 moradoras da ‘república para idosos’ criada em 2012 e mantida pela Prefeitura com ajuda de voluntários.

“Eu varro aqui tudo, cai muita folha da mata para cá. Os carros passam e levam elas para frente, para trás. Aqui é muito ótimo, eu aproveito. Saio de manhã, às vezes preciso comprar alguma coisa e eu vou na cidade. À tarde, gosto de assistir televisão”, conta a idosa timidamente.

Segundo a assistente social Lelier Araújo Adourian, o espaço foi projetado para o acolhimento de pessoas com idade a partir de 60 anos, que recebam até dois salários mínimos e sejam encaminhadas pelo Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) da cidade.

“O idoso que vem para cá é aquele que sofreu violação de direitos. Negligência, maus-tratos, abandono, violência psicológica, algum dano no seio familiar. A maior parte dos que estão aqui não tem mais vínculo familiar. Para estar aqui o idoso também precisa ter autonomia, ele é responsável pela vida dele”, explica.

Esta já foi a realidade de Márcia, que morou nas ruas e viveu de favor em um quarto cedido pelo dono de um posto de combustíveis. Após anos de altos e baixos, ela comemora a nova rotina e agradece através da limpeza que faz.

A aposentada Márcia Gouveia, de 69 anos, varrendo em frente a Vila Dignidade — Foto: Werlon Cesar/G1A aposentada Márcia Gouveia, de 69 anos, varrendo em frente a Vila Dignidade — Foto: Werlon Cesar/G1

A aposentada Márcia Gouveia, de 69 anos, varrendo em frente a Vila Dignidade — Foto: Werlon Cesar/G1

Projeto

Ao todo, 18 casas foram construídas no local, que funciona em uma espécie de sistema de república – um espaço de moradia compartilhado entre diferentes pessoas. De acordo com a assistente social, uma das residências está sendo reformada para acolher um novo morador.

“Também temos aqui atividades no salão social, jogos de interação e aulas de yoga. No centrinho da Vila Dignidade temos alguns equipamentos para eles fazerem ginástica também”, diz Lelier.

A responsável explica ainda que não há tempo máximo de permanência. Os moradores não precisam pagar água, luz e nem taxa de moradia. Essas despesas são custeadas pelo município.

“A maior parte dos idosos que está aqui chegou na inauguração. Eles saem somente quando perdem a autonomia de cozinhar, de limpar a casa, fazer comida, de não conseguir ir ao médico sozinho. Conforme vai perdendo essa autonomia, a gente encaminha para uma Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI)”, explica.

Ao todo, 18 casas compões o local, além de um salão social e academia ao ar livre para os idosos em Ribeirão Preto, SP — Foto: Werlon Cesar/G1Ao todo, 18 casas compões o local, além de um salão social e academia ao ar livre para os idosos em Ribeirão Preto, SP — Foto: Werlon Cesar/G1

Ao todo, 18 casas compões o local, além de um salão social e academia ao ar livre para os idosos em Ribeirão Preto, SP — Foto: Werlon Cesar/G1

Moradores +60

A aposentada Vernadeth Lima de Oliveira, de 70 anos, também vive no local desde 2012. Segundo ela, antes da mudança, morou em um cortiço e vendeu doces no centro da cidade para conseguir pagar as contas do mês. Hoje, a idosa conta que quer aproveitar um dia de cada vez.

“Não tenho rotina, sou versátil e nada de repetir coisas. Na minha vida mudou tudo. Aqui eu tenho paz. Foi o cantinho que Deus me reservou porque eu não tenho condições de pagar um aluguel”, diz.

E quem pensa que estar aposentado é sinônimo de ficar parado se engana. Vernadeth explica que se mantém ocupada. “Tem dias que tenho médico, que saio para a cidade, dias que só limpo minha casa. Também faço patchwork, trabalho em retalho de tecidos, pintura”, conta a idosa, enquanto mostra algumas de suas peças produzidas.

Dona Vernadeth segura tolha com patchwork que ela mesma produziu em Ribeirão Preto, SP — Foto: Werlon Cesar/G1Dona Vernadeth segura tolha com patchwork que ela mesma produziu em Ribeirão Preto, SP — Foto: Werlon Cesar/G1

Dona Vernadeth segura tolha com patchwork que ela mesma produziu em Ribeirão Preto, SP — Foto: Werlon Cesar/G1

Na casa vizinha, a aposentada Noêmia Maria da Silva, de 60 anos, também mostra habilidades com as mãos. A idosa cria chaveiros de biscuit, pinta quadros e faz bonecas de panos. Ela faz da arte a superação para as dificuldades que já passou.

“Trabalhava em um frigorífico, caí na câmara de gelo depois que escorreguei um dia. A parte do osso saiu e fiz 39 cirurgias. Aposentei, mas não parei. A gente para quando morre, enquanto a cabeça está boa não. Deito às 18h. Às 4h eu já levanto e vou deixando as coisas em ordem. Primeiro a obrigação e depois a devoção, que é para fazer os artesanatos”, diz.

O galo Bóris no colo da 'mãe', a aposentada Noêmia Maria da Silva — Foto: Werlon Cesar/G1O galo Bóris no colo da 'mãe', a aposentada Noêmia Maria da Silva — Foto: Werlon Cesar/G1

O galo Bóris no colo da ‘mãe’, a aposentada Noêmia Maria da Silva — Foto: Werlon Cesar/G1

O tempo de Noêmia também é dedicado a dois amigos: o galo Bóris e a galinha Lóri. Ela conta que ganhou os animais de um homem que trabalhava na Vila e hoje eles são como filhos.

“São meu passatempo. Eu levanto cedo, trato deles, brinco com eles. Ele tem ciúmes, dorme no meu colo. Ela é arisca, não deixa pegar, só passar a mão. Não vendo eles por dinheiro nenhum, onde eu for eles vão. São um grude”, explica sorrindo e abraçando Bóris.

Felicidade e gratidão

A felicidade é compartilhada dos moradores mais antigos aos mais recentes. Vera Lúcia de Oliveira chegou há quatro meses e ela diz que já se sente em casa. Acompanhada de uma coleção de livros, a aposentada relembra as dificuldades de morar sozinha e arcar com todas as despesas de uma casa com baixa remuneração.

“Vendia lanche natural na cidade, fazia rocambole, bolachinha. Cada dia eu vendia uma coisa. Minha vida foi isso, sempre trabalhando. Morava de aluguel e o que eu vendia dava para pagar o aluguel e sobreviver. O que eu ganhava não estava dando mais para viver”, conta Vera.

A aposentada diz ainda que hoje prefere descansar e aproveitar o conforto da nova casa sempre bem acompanhada de uma história. Segundo ela, não há passatempo melhor que ler.

Vera Lúcia de Oliveira é apaixonada por leitura e é a moradora recém chegada a Vila Dignidade em Ribeirão Preto, SP — Foto: Werlon Cesar/G1Vera Lúcia de Oliveira é apaixonada por leitura e é a moradora recém chegada a Vila Dignidade em Ribeirão Preto, SP — Foto: Werlon Cesar/G1

Vera Lúcia de Oliveira é apaixonada por leitura e é a moradora recém chegada a Vila Dignidade em Ribeirão Preto, SP — Foto: Werlon Cesar/G1

“Não gosto de televisão, só se for para assistir documentário. Ficção eu não gosto. Tenho a biografia de Schindler e tenho também do sobrevivente que ele salvou na Segunda Guerra. Terminei de ler e já peguei outro, mas esse é espírita. Tinha mais de 500 livros, aí [com a mudança]tirei uns 40 para ficar comigo”, detalha a aposentada.

Com sorriso fácil e uma boa história para contar, o aposentado Juscelino Prado, de 73 anos, agradece por tudo que viveu até aqui. Segundo ele, a vida não foi fácil, repleta de perdas, mas hoje o principal é ser feliz e aproveitar cada momento.

“Levanto cedo, faço o meu café e dou uma ajeitada na minha casa. No domingo, lavo toda a roupa que sujei durante a semana. Depois, rua. Só depois do almoço. De sexta-feira vem um colega meu de Sertãozinho e vamos para o forró lá em Serrana. A gente fica até de madrugada e depois volta de manhã. Tem coisa melhor que isso?”, diz.

Ao ser perguntado sobre quanto tempo pretende ficar, a resposta é rápida. “Saio daqui só quando morrer. De vez em quando me perguntam isso. Um dia vai ter que sair, mas não espero sair tão já. Graças a Deus, estou feliz”.

Juscelino Prado, de 73 anos, morador da 'república para idosos' — Foto: Werlon Cesar/G1Juscelino Prado, de 73 anos, morador da 'república para idosos' — Foto: Werlon Cesar/G1

Juscelino Prado, de 73 anos, morador da ‘república para idosos’ — Foto: Werlon Cesar/G1

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