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Livro de médicos sobre depressão, autismo e bipolaridade na infância é alerta sobre estigma e preconceito

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Pedro, antes dos 4 anos, tentou se atirar da varanda. Aos 5, ameaçou passar na frente de um ônibus em movimento. Assustada, a mãe do menino procurou o ambulatório psiquiátrico da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro. As primeiras frases que disse ao médico Fabio Barbirato foram: “Meu filho nunca sorriu. Isso é normal, doutor?”.

São casos como esse, de crianças e adolescentes com transtornos mentais, que Barbirato e sua esposa, a também psiquiatra Gabriela Dias, descrevem no livro “O menino que nunca sorriu e outras histórias reais”, da editora Máquina de Livros. O casal, em parceria com o jornalista Gustavo Pinheiro, decidiu combater o preconceito com doenças mentais ao relatar o que se passa nos consultórios da Santa Casa.

“Precisamos tirar o estigma que existe em torno desses problemas”, afirma Barbirato. Ele trabalha também em um consultório no Rio de Janeiro. “Vejo que não depende de renda. Seja no serviço público ou na minha clínica, as pessoas ainda acham que depressão é frescura, bobagem. E esse preconceito faz com que pacientes não procurem ajuda médica”, diz.

O psiquiatra explica que a desinformação impossibilita um diagnóstico precoce. Em casos de autismo, por exemplo, detectar o transtorno antes dos três anos pode trazer uma melhora significativa na dificuldade da socialização ou da comunicação.

“Em pessoas com depressão, desprezar os sintomas na infância ou na adolescência pode levar ao uso de drogas como ‘automedicação’. Procurar ajuda e não ter vergonha evitaria esse problema”, completa.

No livro, Barbirato e Dias mostram como o tratamento traz ganhos não só ao próprio paciente, mas também à família dele. Pedro, que tinha tentado o suicídio duas vezes, foi diagnosticado com depressão – o desinteresse pelas brincadeiras, o isolamento social e as ideias de morte precoce foram finalmente explicados.

“Depois de dois ou três anos de atendimento, Pedro pegou uma bola e começou a sorrir. A mãe chorava, comovida. Era a primeira risada dele”, relembra Fabio Barbirato, ao contar a história que mais o emocionou.

Capa do livro "O menino que nunca sorriu & outras histórias reais" — Foto: ReproduçãoCapa do livro "O menino que nunca sorriu & outras histórias reais" — Foto: Reprodução

Capa do livro “O menino que nunca sorriu & outras histórias reais” — Foto: Reprodução

Time de voluntários

Às sextas-feiras, o ambulatório da Santa Casa do Rio atende também casos de autismo, bullying e bipolaridade. São 20 psicólogos, oito neuropsicólogos e quatro fonoaudiólogos – todos voluntários – que recebem pais desesperados por um diagnóstico. Famílias que convivem com a angústia de não saber o porquê do comportamento diferente dos filhos. E que não se incomodam em esperar em demoradas filas para a consulta. Afinal, é um serviço gratuito, reconhecido pela Academia Americana de Psiquiatria.

Por meio do livro, os autores pretendem descrever qual é a realidade de um ambulatório público, que sobrevive “por causa de doação e dedicação”, como define Fabio. “É um local que funciona há 20 anos. Buscamos angariar fundos para melhorar nosso serviço, porque não dá para contar com dinheiro público. Mas também queremos mostrar que, quando há interesse e vontade, dá para fazer um trabalho de excelência”, diz.

Na obra, são relatados casos em que os próprios voluntários se oferecem para pagar pelo transporte de pacientes. Os médicos percebem que a criança e a mãe não vão mais retornar à Santa Casa, pela dificuldade em pagar uma passagem de ônibus, por exemplo. E desejam ajudar.

Formação dos médicos

“O menino que nunca sorriu” traz histórias como a de Antônio, que tem autismo. O diagnóstico levou mais tempo que o normal, já que ele não teve estímulos para se desenvolver na infância. Sua mãe, vítima de estupro, não saía de casa com ele.

Em todos os casos relatados, fica evidente a importância da formação adequada dos médicos e do tratamento multidisciplinar. E isso vai além do conhecimento técnico adquirido na universidade.

“Precisamos saber como entrar no mundo das crianças e dos jovens. Nossos exames são clínicos, pela observação. Não trabalho com ressonância ou eletrocardiograma. Tenho de saber entrevistar o paciente e me aproximar dele”, conta Barbirato. “Tiro o terno, coloco uma camisa polo e sento no chão. Não adianta ter uma mesa de distância entre o médico e o paciente.”

O psiquiatra afirma que falta aos médicos, em geral, esse olhar humano. E diz que, na graduação, a infância não é valorizada. “Senti falta disso, corri atrás de uma especialização. Montamos também um curso de atualização aqui no Brasil, com esse foco”, relata.

Internet como vilã?

Com o acesso à Internet, o conhecimento não estaria mais democrático? A população não poderia se informar melhor sobre transtornos mentais? O problema é que, junto com textos e vídeos esclarecedores, há um farto material com dados falsos sobre as doenças: recomendações de tratamentos sem comprovação científica, estímulo à automedicação.

“O autismo, por exemplo, virou um filão para gente picareta. Há pessoas que se aproveitam do desespero dos pais, que acabaram de ouvir o diagnóstico, para oferecer soluções ‘milagrosas’. Dietas sem lactose, lavagem intestinal, uso do MMS, que, por sinal, é crime”, diz o psiquiatra.

Por Luiza Tenente, G1

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