Nos bastidores do bunker de Lula

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Por Andréia Sadi

“Agora, é esperar o Supremo”.

Foi assim que um dos principais interlocutores do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva respondeu ao questionamento do Blog sobre qual será a principal estratégia da defesa do petista após a prisão.

O aliado de Lula se refere à expectativa do PT em relação a uma eventual revisão da possibilidade de prisão após condenação em segunda instância pelo Supremo Tribunal Federal.

O cenário de que, possivelmente, o ministro Marco Aurelio Mello vai levantar a questão na próxima quarta-feira (11) animou os petistas.

Mas logo veio um banho de água fria no grupo que estava no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC com Lula quando chegou a notícia, na sexta-feira (6), de que a presidente do STF, Cármen Lúcia, iria pautar dois habeas corpus para votação na mesma data. Como habeas corpus têm preferência nas sessões do Supremo, a discussão da segunda instância pode ser adiada.

A ficha em que aposta o PT atende pelo nome de Rosa Weber. A ministra votou contra a prisão em segunda instância em 2016 – mas, na semana passada, disse que agora não é o momento de revisitar o assunto, amplamente discutido pelo Supremo.

O tema dominou as rodas no Sindicato dos Metalúrgicos nos últimos dias. Foi lá que o ex-presidente montou seu quartel-general após o juiz federal Sergio Moro decretar a sua prisão.

Dois grupos se formaram ali: a ala política e a ala dos advogados. O grupo político defendia que Lula não se entregasse. “Se a Polícia Federal quiser, vai ter de buscar Lula aqui”, disse o senador Lindbergh Farias (PT-RJ), que acompanhava o ex-presidente.

Os advogados, mais cautelosos, temendo um agravamento do quadro jurídico do ex-presidente, explicavam as consequências daquela resistência.

Ainda na quinta-feira (5), Lula escalou três interlocutores para negociar com a Polícia Federal os termos de sua apresentação. Na linha de frente, o ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo e o advogado Sigmaringa Seixas.

Uma ironia no caso de Cardozo – justamente um dos petistas mais criticados por Lula durante o governo Dilma. O ex-presidente tentou, por diversas vezes, convencer Dilma a tirar Cardozo do Ministério da Justiça, que controlava a Polícia Federal. Primeiro, por conta das investigações da Operação Porto Seguro, em 2012. Depois, diante dos avanços das investigações da Lava Jato em relação a petistas, a partir de 2014.

Cardozo só deixou o MJ no fim do governo Dilma, mas migrou para a Advocacia-Geral da União – e seguiu como principal interlocutor de Dilma. Nos últimos dois dias, exerceu a interlocução com autoridades da PF a favor de Lula.

Com a ordem de Moro para prender Lula, Cardozo conversou por telefone com o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann. À Superintendência da Polícia Federal, Lula enviou emissários para conversar com o delegado Disney Rosseti.

Nenhuma fonte ouvida pelo Blog revelou os detalhes dos termos que Lula queria para se apresentar espontaneamente à PF. Afirmaram se tratar de “questões de segurança”.

Segundo aliados de Lula, o ex-presidente tentava descontrair o ambiente com bom humor. “O que facilitava a nossa reação, porque ele tentou distensionar o ambiente”. Lula passou mais tempo consolando os inconsoláveis com sua prisão do que falando de sua situação, relatam petistas. “Organizando a tropa”, disse um amigo.

E, segundo eles, Lula só tinha batido o martelo de que não iria a Curitiba. Estava disposto a se entregar – mas queria garantir o comando da narrativa. Construiu, literalmente, sua saída do sindicato: a pé, rodeado de militantes – e gravado em vídeo e som.

Um pouco antes, tentou sair de carro – mas apoiadores bloquearam a saída da garagem. Lula voltou para dentro do sindicato. Havia uma preocupação sobre um possível incidente direto entre militantes e policiais militares.

O ex-presidente ficou com familiares, amigos e parlamentares no 2° andar do prédio. Alimentou-se e tomou seus remédios de uso regular.

Houve uma defesa para quer Lula arrastasse até 18h sua prisão – no entendimento de que, a partir deste horário, a PF não o prenderia mais. A praxe é de que prisões não acontecem em domicílio entre 18h e 6h. E, neste caso, o prédio do Sindicato funcionava como domicílio de Lula.

Mas o comando do PT, após ponderação da defesa, pediu à militância que deixasse a PF levar o ex-presidente. Evitaria, assim, agravar seus problemas com a Justiça.

G1

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