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O impacto de uma quarentena na saúde mental

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Apesar de todos saberem sobre a necessidade de evitar qualquer convívio social para conter o novo coronavírus, controlar a vontade de ir para a rua ou encontrar outras pessoas é uma tarefa difícil. Enfrentar uma quarentena pode ter impacto na saúde mental dos indivíduos. É o que mostra uma revisão de pesquisas, publicada este mês na revista científica “The Lancet”, sobre os efeitos psicológicos da quarentena durante o período da epidemia de SARS, a síndrome respiratória aguda que surgiu em 2002. De acordo com o levantamento, 29% apresentaram sintomas de estresse pós-traumático, enquanto 31% tiveram depressão depois do isolamento.

Os efeitos psicológicos da quarentena incluem depressão e estresse pós-traumático  — Foto: Leo2014 por PixabayOs efeitos psicológicos da quarentena incluem depressão e estresse pós-traumático  — Foto: Leo2014 por Pixabay

Os efeitos psicológicos da quarentena incluem depressão e estresse pós-traumático — Foto: Leo2014 por Pixabay

Portanto, esse efeito colateral da pandemia que vivemos também tem que ser objeto de atenção da saúde pública. O período de quarentena pode desencadear um estado permanente de ansiedade. Além do medo de contrair a doença, quase sempre há perdas financeiras, por isso é tão importante que o governo disponibilize um canal de informações eficiente e permanente.

Numa entrevista para a revista eletrônica “Quartz”, o psicólogo e escritor Frank McAndrew disse que uma quarentena pode ser especialmente angustiante porque as pessoas se veem à mercê de outros e de forças incontroláveis, como é o caso de uma pandemia. Como a médica geriatra Claudia Burlá afirmou na coluna de terça deste blog, já que os idosos devem ficar em casa, esta pode ser uma oportunidade para introduzir ou ampliar o alcance do mundo digital em seu dia a dia. Além de conversar com amigos e parentes, eles podem fazer exercícios e se divertir com jogos que ajudam a passar o tempo.

Os efeitos do isolamento ainda são tímidos no Brasil, mas pedi depoimentos sobre a experiência e agradeço a todos que compartilharam suas impressões. Fernando Adas percebe um aumento da solidariedade: “gente compartilhando álcool gel, conselhos, serviços”. Daniel Marques está há uma semana em casa e, para combater o tédio, visita museus virtuais e aproveita para arrumar todas as gavetas. Eduardo Zugaib escreve uma série de crônicas sobre o diário da quarentena, tentando abordar o tema de forma bem-humorada: “a escrita é terapêutica”, avalia. Já Alberto Monteiro Netto se preocupa com os profissionais liberais, autônomos e pequenos comerciantes: “esses não terão salário e ainda temo que depois haja um movimento de demissões”. A consultora de RH Claudia Fernandes divide com ele a inquietação: “os boletos vão continuar chegando”. Juliana Peixoto dos Anjos está em Portugal e assume: “estou tendo crise de pânico e ansiedade. Passo o tempo todo comendo, fumando ou na janela”. Elizabete Antunes também mora em Portugal, com o marido e a enteada, e reconhece que ficar trancada a angustia: “não vejo a hora de isso acabar. Minha casa é um QG animado de encontros, mas todos estão levando o isolamento a sério”. Teresa Cas vive em Cannes e afirma que normalmente é caseira, “mas estar proibida de sair vem me causando mal-estar e sinto fome à toda hora, o que não é normal. Preciso sair para alimentar os gatos de uma amiga, que não conseguiu voltar para a França, e sempre tenho que preencher um formulário para provar a necessidade de estar fora de casa, caso seja interpelada pela polícia”. Vamos precisar muito de uma corrente de solidariedade.

Por Mariza Tavares

Jornalista, mestre em comunicação pela UFRJ e professora da PUC-RIO, Mariza escreve sobre como buscar uma maturidade prazerosa e cheia de vitalidade.

Bem Estar/G1

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