TSE vai caçar robôs para evitar fraude nas eleições de outubro

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O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) finaliza uma resolução para fechar o cerco a partidos e candidatos que tentem usar robôs (programas computadorizados) para impulsionar a campanha. A intenção é especificar quais práticas são proibidas no uso das redes sociais na hora da divulgação das propostas e quais ações podem resultar na punição dos concorrentes ao pleito. Mensagens padronizadas e publicadas de maneira incomum durante debate televisivo realizado na noite de quinta-feira levantam suspeitas de uso da tecnologia para alavancar candidatos.
De acordo com dados obtidos com exclusividade pelo Correio, durante três horas de debate na Rede Bandeirantes, foram publicadas mais de 2 milhões de mensagens no Twitter. Esse número representa um crescimento de quase 140% em relação ao número de tweets distribuídos durante o primeiro debate televisivo das eleições de 2014. Mas o que chamou atenção desta vez, foi o fato de que o nome de candidatos brasileiros figuraram entre os assuntos mais comentados das redes sociais em pelo menos dois países. A ação coordenada de usuários usando hastags (tópicos de pesquisa) levantou as suspeitas de especialistas.
O candidato Jair Bolsonaro foi o mais citado nas redes sociais, tanto no Brasil como no exterior. Ele também é alvo de milhares de mensagens, escritas em idiomas estrangeiros e com o mesmo padrão de publicação. Um levantamento realizado a pedido da reportagem pelo professor Fábio Malini, coordenador do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic) do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), revelou que durante três horas, Bolsonaro foi mencionado em 452 mil tweets, difundidos na rede por mais de 55 mil usuários. Deste total, cerca de 21%, ou seja 88 mil, tweets foram publicados em idiomas como inglês, espanhol e alemão.
Os dados são bem superiores a outros candidatos, como Ciro Gomes, que foi citado em 35 mil tweets, incluindo mensagens de texto com o nome dos candidatos e hashtags. Pouco mais de 7 mil usuários se envolveram nas mensagens endereçadas a Ciro. De acordo com o estudo, 5,1 mil mensagens, ou seja, 13% do total, foram publicadas em idiomas diferentes da língua portuguesa.
Ao mesmo tempo em assuntos relacionados ao candidato Jair Bolsonaro apareciam entre os mais comentados do Twitter na Rússia e na Letônia, no Brasil a presença dele era escassa nos trending topics. O parlamentar chegou a acusar o Twitter de censura e disse que assuntos relacionados a ele “estavam sendo bloqueados”.
A resolução 53.551, do Tribunal Superior Eleitoral, que regulamenta a campanha eleitoral, permite o impulsionamento pela internet. Mas destaca que “não é admitida a veiculação de conteúdos de cunho eleitoral mediante cadastro de usuário de aplicação de internet com a intenção de falsear identidade”. Mas essa norma deve sofrer alterações e, inclusive, prever punições e restringir a propaganda paga nas redes sociais nos próximos dias, de acordo com uma fonte da Justiça Eleitoral ouvida sob a condição de anonimato.

Padrão

Procurado pela reportagem, o Twitter informou que “conduziu a própria investigação e não identificou uma ação coordenada relacionada às hashtags em questão”. De acordo com a rede social, “os assuntos do momento (trending topics) são determinados por um algoritmo que identifica os tópicos populares da atualidade. O volume de tweets é apenas um dos fatores que o algoritmo considera para classificar e determinar os trending topics”.
A empresa informou ainda que “se não há assuntos do momento suficientes para uma região específica, o Twitter preenche os trending topics deste lugar levando em consideração uma área expandida, incluindo assuntos do momento de outros países e globais (por exemplo, se não houver assuntos do momento suficientes na cidade de São Paulo, o Twitter preencherá a lista com assuntos do momento do estado de São Paulo; se continuar insuficiente, a plataforma incluirá na lista os tópicos do Brasil e então os globais”.
Malini vê que, no caso do debate, pode ter ocorrido uma confluência entre o algoritmo (regras de programação) da rede social e o uso de robôs para impulsionar o conteúdo dos candidatos. “Os robôs utilizam textos mais curtos, têm um padrão. Nos debates eles ficam muito evidente. Neste caso pode ter sido uma confluência dos dois: o algoritmo do Twitter e a difusão de mensagens padrão. É possível notar a publicação de mensagens apenas com hashtags, que são retuitadas (compartilhadas) milhares de vezes. Não é um comportamento usual”, afirma. Diretor da empresa de tecnologia Datascript, Guto Graça defende o aprofundamento de investigações. “É preciso não dar margem a dúvidas, falamos da democracia”, diz ele, um especialista comunicação e conteúdo colaborativo.
Em nota, o TSE informou que “primeiramente tem atuado em caráter educativo, com campanha nacional informando o eleitor para os cuidados essenciais que se deve tomar para identificar uma notícia falsa e não propagá-la. Em segundo lugar, nos casos que se fizerem necessários após apuração realizada pela Polícia Federal e pelo Ministério Público, a Justiça Eleitoral poderá atuar de forma a inibir práticas ilegais”. Procurados pela reportagem, Jair Bolsonaro e Ciro Gomes não quiseram se manifestar.
Colaborou Bernardo Bittar
Correio Brasiliense
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