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John Bercow deixa cargo de presidente da Câmara dos Comuns; saiba quem é

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O presidente da Câmara dos Comuns do Reino UnidoJohn Bercow, deixa o cargo nesta quinta-feira (31) após passar 10 anos na função. O britânico de 56 anos ganhou notoriedade com os gritos de “Order!” nas discussões acaloradas do Parlamento – sobretudo nas sessões que decidem os rumos do Brexit. Veja no vídeo acima.

Bercow anunciou a saída em setembro, quando o Parlamento ainda decidia se haveria novas eleições em meio à crise sobre o adiamento ou não do Brexit. O político alegou que deixa o cargo por motivos familiares.

John Bercow deixa o cargo de presidente da Câmara dos Comuns nesta quinta-feira (31) — Foto: ©UK Parliament/Jessica Taylor/Handout via REUTERS John Bercow deixa o cargo de presidente da Câmara dos Comuns nesta quinta-feira (31) — Foto: ©UK Parliament/Jessica Taylor/Handout via REUTERS

John Bercow deixa o cargo de presidente da Câmara dos Comuns nesta quinta-feira (31) — Foto: ©UK Parliament/Jessica Taylor/Handout via REUTERS

Em entrevista ao G1 em maio, Bercow contou que recorre ao bom humor para lidar com a tensão na Câmara e às trocas de acusações e xingamentos entre parlamentares de partidos diferentes. “É uma questão de profissionalismo”, aponta.

“Não é porque os debates são tensos, acalorados e com um clima furioso de discórdia, que o presidente da Câmara deve ficar irritado”, afirmou Bercow.

Além da presidência da Câmara dos Comuns, Bercow vai deixar o Parlamento em dezembro: ele não vai se candidatar nas próximas eleições do Reino Unido. Antes disso, os parlamentares deverão escolher o sucessor do atual “speaker” na segunda-feira (4), e de acordo com o jornal “The Guardian”, há nove candidatos ao posto.

Neutralidade obrigatória

O líder da Câmara, John Bercow, é aplaudido após pronunciamento no Parlamento britânico, na segunda-feira (9) — Foto: Jessica Taylor/UK Parliament/AFPO líder da Câmara, John Bercow, é aplaudido após pronunciamento no Parlamento britânico, na segunda-feira (9) — Foto: Jessica Taylor/UK Parliament/AFP

O líder da Câmara, John Bercow, é aplaudido após pronunciamento no Parlamento britânico, na segunda-feira (9) — Foto: Jessica Taylor/UK Parliament/AFP

Bercow chegou ao Parlamento ao se eleger pelo Partido Conservador em 1997. Em 2009, eleito presidente da Câmara, ele precisou deixar a agremiação e se comprometer a não se posicionar publicamente sobre assunto nenhum – nem sobre o Brexit.

A cautela com a neutralidade não impediu Bercow de ter boas relações com os diversos lados da Câmara. “Um parlamentar que é grande apoiador do Brexit foi meu padrinho de casamento. E, ao mesmo tempo, tenho grandes amigos anti-Brexit”, exemplifica.

Em 2010, Bercow se envolveu em polêmica quando a mulher dele, Sally, decidiu se candidatar ao conselho de Westminster pelo Partido Trabalhista – principal rival dos conservadores –, sem sucesso.

John Bercow deixa, pela última vez, o Parlamento britânico como presidente da Câmara dos Comuns nesta quinta-feira (31) — Foto: ©UK Parliament/Jessica Taylor/Handout via REUTERS John Bercow deixa, pela última vez, o Parlamento britânico como presidente da Câmara dos Comuns nesta quinta-feira (31) — Foto: ©UK Parliament/Jessica Taylor/Handout via REUTERS

John Bercow deixa, pela última vez, o Parlamento britânico como presidente da Câmara dos Comuns nesta quinta-feira (31) — Foto: ©UK Parliament/Jessica Taylor/Handout via REUTERS

Por isso, a vigilância é grande: parlamentares, principalmente governistas, pediram que Bercow deixasse o posto por supostamente colocar em risco a neutralidade da posição. Pressionado, ele cogitou deixar o cargo neste ano, mas voltou atrás e deve continuar, de acordo com o jornal britânico “The Guardian”.

Assim, Bercow mantém o cuidado para não vazar ao público nenhuma posição que ele tenha sobre um tema.

“Você não pode dizer no privado algo que não poderia defender em público”, explica.

Gritos de ‘Order!’ e gravatas coloridas

O presidente da Câmara dos Comuns, John Bercow, anunciou que o parlamento retoma os trabalhos na quarta-feira — Foto: Reuters/Henry NichollsO presidente da Câmara dos Comuns, John Bercow, anunciou que o parlamento retoma os trabalhos na quarta-feira — Foto: Reuters/Henry Nicholls

O presidente da Câmara dos Comuns, John Bercow, anunciou que o parlamento retoma os trabalhos na quarta-feira — Foto: Reuters/Henry Nicholls

A rede britânica BBC diz que Bercow pronunciou a palavra “Order” – “ordem”, em inglês – quase 14 mil vezes em 10 anos.

Isso considerando apenas as sessões parlamentares, porque o presidente da Câmara disse ao G1 que, não raro, precisa gritar “Order!” ao gato da família que se chama “Order”. Segundo Bercow, o animal é um caçador de ratos apartamento onde vivia com a família no Palácio de Westminster, sede do Parlamento, até deixar o posto.

“A gente vive em um palácio muito antigo, então o Order faz um belo trabalho em espantar os ratos”, disse.

As gravatas de John Bercow chamam a atenção. Em uma homenagem ao sul-africano Nelson Mandela, o presidente da Câmara dos Comuns usou uma gravata com bandeiras da África do Sul estampadas — Foto: Stefan Rousseau/Pool/AFP/ArquivoAs gravatas de John Bercow chamam a atenção. Em uma homenagem ao sul-africano Nelson Mandela, o presidente da Câmara dos Comuns usou uma gravata com bandeiras da África do Sul estampadas — Foto: Stefan Rousseau/Pool/AFP/Arquivo

As gravatas de John Bercow chamam a atenção. Em uma homenagem ao sul-africano Nelson Mandela, o presidente da Câmara dos Comuns usou uma gravata com bandeiras da África do Sul estampadas — Foto: Stefan Rousseau/Pool/AFP/Arquivo

Morar na sede do Parlamento, inclusive, deixa o presidente da Câmara quase todo o dia com a cabeça no trabalho. Para relaxar, Bercow vai com o filho mais velho, Oliver, de 15 anos, a jogos do Arsenal. Um programa quase semanal.

Além disso, ele guarda o hábito de colecionar gravatas – todas muito coloridas, que já chamaram atenção da imprensa britânica e das redes sociais. “Muita gente me diz que ama, mas tem quem não goste: ‘Ah, John, eu detestei'”, contou. “Mas é a minha gravata, e não a deles.”

“Qualquer que seja seu trabalho, você precisa se desligar um pouco às vezes. Ou então, você enlouquece”, reflete.

O que faz o presidente da Câmara?

John Bercow discursa no Parlamento britânico nesta quinta-feira (31), último dia em que ele ocupa a Presidência da Câmara dos Comuns — Foto: ©UK Parliament/Jessica Taylor/Handout via REUTERS John Bercow discursa no Parlamento britânico nesta quinta-feira (31), último dia em que ele ocupa a Presidência da Câmara dos Comuns — Foto: ©UK Parliament/Jessica Taylor/Handout via REUTERS

John Bercow discursa no Parlamento britânico nesta quinta-feira (31), último dia em que ele ocupa a Presidência da Câmara dos Comuns — Foto: ©UK Parliament/Jessica Taylor/Handout via REUTERS

Na maioria das vezes, o presidente da Câmara – ou “speaker”, em inglês – lê aos parlamentares presentes a proposta e pede que os favoráveis ou contrários digam, em voz alta, sim ou não. Caso não haja maioria clara, ele grita: “Divisão! Deixem o salão”.

O que vem depois parece programa de auditório dos anos 1990. Quem vota “sim” segue ao corredor da direita. Quem vota “não” vai para a esquerda. Os parlamentares têm oito minutos para se decidir. Não tem painel eletrônico. Veja a arte abaixo:

Saiba como funciona a votação no Parlamento britânico — Foto: Wagner Magalhães e Rodrigo Cunha/G1Saiba como funciona a votação no Parlamento britânico — Foto: Wagner Magalhães e Rodrigo Cunha/G1

Saiba como funciona a votação no Parlamento britânico — Foto: Wagner Magalhães e Rodrigo Cunha/G1

A votação física gera situações curiosas. Bercow contou ao G1 que há casos de parlamentares que ficaram presos no banheiro e não conseguiram chegar ao corredor de votação dentro dos oito minutos.

“Teve gente também que foi ao lado errado e não conseguiu retornar a tempo de corrigir o voto”, relatou o presidente da Câmara.

O presidente da Câmara não tem direito a voto. A exceção é quando há empate nas votações, e aí o voto de minerva fica a cargo do “speaker”. E mesmo assim, um precedente o manda votar de tal modo que os parlamentares continuem a discutir o assunto em questão.

“Não é o presidente que deve criar uma nova lei quando a maioria da Casa não se posicionou a favor disso”, explica Bercow.

Em quase 10 anos no cargo, ele só precisou fazê-lo uma vez, em 3 de abril, quando os parlamentares votaram empatado numa resolução que permitiria fazer mais uma sessão sobre o Brexit à revelia do governo da então primeira-ministra Theresa May. Seguindo o precedente, Bercow votou “não”.

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