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Por que os fazendeiros de café de São Paulo preferiam a mão de obra do Ceará?

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São Paulo. Em 1878, houve um histórico êxodo cearense para o estado próspero com a exportação de café. Nosso povo -simples, carente, mas disposto ao trabalho – fugia de uma severa estiagem e ausência de políticas públicas para minimizar os efeitos perversos da seca. Mas o que a produção intelectual paulista vê hoje daquele período?

Legenda: Historiadora paulista Denise Moura, da Unesp, pesquisou sobre a vinda de cearenses para fazendas de caféFoto: Unesp

Estudando o período histórico da transição do regime de escravidão para o trabalho livre, a professora e historiadora paulista Denise Soares de Moura chegou ao capítulo da vinda de migrantes cearenses para as fazendas de café em São Paulo em 1878. Ela mergulhou nas minúcias das histórias da diáspora sertaneja, localizando rostos e identidades, como se deu, em detalhes, a chegada do pessoal do Ceará em terras paulistas. Entender essa origem talvez nos ajude a entender como se iniciou o preconceito, o ódio e as agressões. Quanto mais consciência sobre as etapas de um problema, mais fácil fica o controle de nossas reações à discriminação, levando ao rápido entendimento das emoções negativas envolvidas nesse tipo de dor psíquica.

No dia 26 de maio desse ano, na estação ferroviária da Luz desembarcaram Raimundo Pereira da Silva, sua mulher Francisca e mais quatro filhos. Exaustos, eles vinham da “província do Ceará” em busca de condições para a sobrevivência.

“Especialmente a região semiárida do sertão cearense tinha sua economia basicamente dirigida para a produção interna de algodão, pecuária e gêneros alimentícios. Diferentemente do litoral açucareiro, centro do sistema colonial brasileiro e inserido diretamente no processo de acumulação do capital metropolitano, o Ceará esteve durante todo esse período relegado a um segundo plano, pois não reunia condições para o desenvolvimento de um empreendimento açucareiro pelo fato de o solo ser muito arenoso, a água, escassa, e de não ter matas para o fornecimento de lenha. Em vista dessa situação, restava a amplos grupos de homens e mulheres da região a alternativa de se arranjarem com os proprietários locais na condição de parceiros, arrendatários, meeiros e moradores”.

Legenda: Nordestinos, incluindo crianças, buscavam condições de sobrevivência no oeste paulista que enriquecia graças à exportação de caféFoto: Museu da Imigração

Para a professora, o uso da mão de obra cearense na cafeicultura paulista marca o encontro entre duas culturas distintas: o povo nordestino com o povo italiano, ambos migrantes que ergueram a riqueza do estado mais rico da Federação.

“A condição de penúria, a exclusão do acesso a terras férteis e o teor violento do convívio com os proprietários rurais do interior cearense – patriarcas cujos interesses e decisões revestiam-se de um caráter de lei, aplicada pela atuação da sua milícia privada – também contribuiram para reforçar o conteúdo errante da vida do sertanejo”, resume o capítulo escrito por Moura.

Entre 1872 e 1890, mais de 350 mil pessoas maiores de 10 anos deixaram as “terras do Norte”, muitas delas com passagens subsidiadas oficialmente – para regiões do Pará, Amazonas e São Paulo, incluindo o pagamento de diárias para pousadas provisórias nos caminhos.
“Num determinado momento de crise conjuntural da economia nordestina, acentuada pela seca, a própria elite e o governo local procuraram estimular a saída de segmentos pobres e livre de sua população para outras regiões”, observa.

Enquanto o interior nordestino sofria com a seca e a própria economia da região declinava, os pés de café se multiplicavam enriquecendo muitos proprietários do oeste paulista a partir de 1870.

Essa prosperidade veio acompanhada de preocupações relativas à escravidão e à introdução de trabalhadores livres na província.

“A mobilização dos fazendeiros no sentido de solucionar o problema incluiu: as experiências com trabalhadores estrangeiros em colônicas de parceria, empreendidas pelo senador Vergueiro em 1846, o tráfico interprovincial de escravos do norte, e a criação, em 1876, da Inspetoria-Geral das Terras e Colonização, representando uma medida legal e administrativa para centralização das funções da imigração dentro do espírito da Lei de Terras de 1850”, sintetiza Moura.

Rio Claro, na região de Campinas, foi um dos municípios que receberam levas de cearenses.

“Um fazendeiro de Rio Claro, na sua exposição durante os trabalhos do Congresso Agrícola de 1878, no Rio de Janeiro, fez questão de salientar que o Ceará tem enviado homens para todos os pontos do Império e em sua casa acham-se 55 cearenses, que trabalham”, exemplifica a professora.

Como foi esse primeiro encontro entre os cearenses e os paulistas? A estudiosa chegou a encontrar no Arquivo Público correspondências da época.

“A vinda para São Paulo nessa época, longe de restringir-se às negociações e interesses das elites e autoridades das duas províncias, fez-se através de ajustes ligados a solidariedades vicinais, às formas de sociabilidade na terra natal, à afetividade e vínculo familiar e às relações de dependência”, conclui. 

Uma carta que Raimundo, citado no começo deste texto, trazia no bolso quando de sua chegada a São Paulo revela esses traços que envolviam o movimento migratório:

“Compadre e amigo

Limeira, 24 de maio de 1878.

Tenho presente sua cartinha datada de 22 do corrente que apresso-me em responder.

Ainda hontem estive com o fazendeiro com quem arranjei agasalho para vmê., e disse-me que está pronto a recebel-o por isso logo que esta receber pode vir para esta. O Vicente e seu genro também podem vir hem sua companhia. As quatro famílias de que me falla, se forem pessoas affeitas ao trabalho da lavoura, também podem vir, porque ainda que este fazendeiro não os queira acceitar, tenho uma encomenda de um fazendeiro importante de S. Carlos do Pinhal, de dez ou doze famílias cearenses e que estou autorizado para isso.

Se encontrar algum obstáculo da parte do Exmo. Sr. Presidente da Província em dar passagem, procure ahy o meu amigo Sr. coronel João de M. Pimentel, que mora na rua do Imperador, nº 29 e apresente-lhe esta carta que lhe prestará serviços no sentido de arranjar passagem com o Exmo. Sr. Presidente.

Aqui o espero, seu companheiro e amigo

Lucas Ribeiro do Prado

P. S. não vou mesmo lá porque agora estou só em caza. Procure hoje o Florindo na r. S. Bento, nº 71, caza do Sr. Francisco Muller”.

O trato afetuoso e a possibilidade da familiarização das relações e do convívio compuseram a personalidade da cultura brasileira, lembra a professora. “Desta maneira, o parentesco por laços de amizade – no caso do compadrio – e o emprego dos diminutivos: a terminação inha(o), que além de informal aproxima e familiariza o estranho – são significativos no contexto da migração de cearenses para São Paulo, pois revelam a presença de práticas costumeiras e tradicionais permeando esse momento prévio de institucionalização de um movimento imigratório visando à configuração de um contingente de trabalhadores”, observa a pesquisadora.

Legenda: Penúria dos “retirantes” chamava atenção das autoridades paulistas no final do século XVIII (18), como comprovam os telegramasFoto: Museu da Imigração

Antes de chegar a São Paulo, o migrante cearense passava no Rio de Janeiro, sede do Império. Oficialmente, éramos chamados de “retirantes”.

“O Governo do Ceará financiava a viagem até a Corte e desta para São Paulo. Chegando à província, os retirantes tanto poderiam ser diretamente encaminhados para as fazendas cujos proprietários já os aguardavam nas propriedades, como podiam alojar-se provisoriamente na Hospedaria de Imigrantes e Retirantes Cearenses, provavelmente um estabelecimento anterior à Hospedaria inaugurada em 1885. Os retirantes somente eram admitidos na Hospedaria sob ordem escrita do agente, e deviam obedecer a uma série de determinações, como entrada com hora marcada, a conservação dos recintos no maior aceio, tendo os hóspedes a obrigação de varrer diariamente seus respectivos aposentos e lavá-los nos dias designados pelo administrador. Eram proibidos os jogos de azar e passatempos ruidosos. Aqueles que trouxessem consigo armas de qualquer natureza eram obrigados a entregá-las, na occasião de entrada na hospedaria, ao administrador, os quais as devolveriam aos seus donos assim que deixassem o local”, apura a pesquisa.

Nem todos cearenses chegavam a São Paulo, como eram esperados pelos agenciadores de mão de obra migrante para os fazendeiros. Mudavam o destino. Ficavam no Rio de Janeiro ou na capital paulista mesmo. A região da Bela Vista, no Centro paulistano, é famosa por ter sido o abrigo desses cearenses. Conhecido como “Bixiga”, o bairro é uma mistura dos hábitos dos imigrantes italianos, ceaarenses e outros nordestinos.

Logo, os cearenses mostraram o resultado de sua força de trabalho nas lavouras de café. Resultado: os fazendeiros achavam insuficiente o número de famílias que chegavam à sua propriedade. Em Guaratinguetá, o fazendeiro identificado como Raphael Brotero noticiou: “Vieram muito poucos cearenses. Mande amanhã 20 famílias”.

Nesses telegramas, havia a expressão de que os “retirantes” do Ceará eram os preferidos dos cafeicultores na comparação com os imigrantes italianos.

“O agente Joaquim Rangel, que assinou todos os ofícios desse período envolvendo a questão dos migrantes, dizia ao presidente da província: ‘Cumpre-me dizer a V. S. que havendo falta de braços para a lavoura e sendo preferido pelos fazendeiros os nacionais, tenho tido diversos pedidos de retirantes cearenses, os quais com facilidade encontrarão aqui emprego nesse ramo de serviços, deixando assim o governo de fazer com elles grandes despezas, nas hospedarias da corte, onde segundo me consta existe avultado número'”, narra Moura.

Não foi fácil a adaptação dos cearenses à nova vida, às novas terras, ao novo ofício, ao novo clima.

“A problemática da migração interna de cearenses para São Paulo, num contexto de crise do escravismo e de intensos debates em torno da possibilidade de se promover a migração em massa de trabalhadores europeus para a província suscita, assim, diversas inquietações. Como se deu a experiência desses retirantes nas propriedades cafeeiras? Como organizaram suas vidas, sua sociabilidade e reelaboraram seus costumes e práticas num novo meio social e sob novas condições de trabalho”?, problematizou a professora.

Mesmo necessitanto de fonte de renda, os cearenses estudavam os melhores lugares para trabalhar em São Paulo, buscando fazendas de café com boa reputação com os migrantes. 

“A relação entre os retirantes e os fazendeiros paulistas não foi de mero recrutamento, pois em vários ofícios aqueles expressavam seu desejo de seguir para uma determinada propriedade, não somente para se juntarem aos familiares já estabelecidos, mas possivelmente pelo que ouviam dizer do proprietário, das condições de trabalho e de moradia. Algumas propriedades se constituíram em verdadeiros focos de atração, como a do Sr. Raphael Brotero, em Guaratinguetá. Segundo oficiava o agente: ‘Chegaram hoje a esta capital e seguiram para uma fazenda em Rio Claro, cento e tantos retirantes cearenses. Ao chegarem à estação da Luz não quiseram seguir alguns dos mesmos retirantes, em número de cinco, dos quais peço…conceder passagem para Guaratinguetá ao de nome Manoel Francisco P. do Nascimento e a sua família que desejam ir para a fazenda do Dr. Raphael Brotero, igualmente peço…que se digne conceder passagem para o mesmo lugar ao retirante Francisco J. Ferreira e uma filha, os quais tendo sido empregados nestas cidade, desejam também ir para a mesma fazenda'”, testemunha o documento.

Tanto tempo depois, a presença da comunidade cearense em São Paulo ainda é forte em diversos setores da economia paulista. Quando o discurso de ódio contra os cearenses tenta articular uma base para suas ofensas, ouve-se a reclamação de que os impostos do estado mais rico do País são drenados para financiar a preguiça dos “baianos”, que em vez de trabalhar muito, ficam na praia dançando forró ou axé, um povo dependente da verba pública para resolver o vitimismo da seca, da miséria e do analfabetismo. A História da cafeicultura paulista, base do enriquecimento do estado do Sudeste, mostra, no entanto, que o suor cearense bem que foi necessário para os resultados obtidos pelos fazendeiros, como comprovam os documentos da época. 

Diário do Nordeste

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